Percepção de que “bets” causam vício sobe para 57% no país, aponta Datafolha

Por O Brasiliense 

A desconfiança da população em relação às apostas esportivas e aos cassinos virtuais voltou a crescer no Brasil. Uma pesquisa nacional realizada pelo instituto Datafolha nos dias 20 e 21 de maio revela que a parcela de brasileiros que avaliam as chamadas bets e jogos online como um vício subiu para 57%, registrando uma oscilação positiva em comparação com os 54% observados no levantamento de 2024.

O estudo ouviu 1.970 pessoas em 139 municípios de todas as regiões do país, apresentando uma margem de erro global de 2 pontos percentuais. Para a esmagadora maioria, o mercado de apostas não é visto como alternativa financeira: 30% definem a prática como perda de dinheiro, enquanto apenas 1% enxerga as plataformas como fonte de renda ou investimento. O grupo que considerava o ecossistema uma mera “diversão” encolheu, caindo de 9% para 6%.

Redução no Uso de Reservas e Dinheiro Emprestado

O dado mais expressivo da nova rodada de pesquisas aponta para uma retração nas fontes de financiamento de risco utilizadas pelos apostadores para abastecer suas contas de jogos. Embora a parcela de brasileiros ativos no mercado de apostas tenha se mantido estável em 7%, a origem do dinheiro mudou significativamente em relação ao fim de 2024:

  • Empréstimos e Contas: O índice de jogadores que pediram dinheiro emprestado desabou de 15% para 8%. Já os que deixaram de pagar contas essenciais para apostar recuou de 13% para 6%.
  • Poupança e Crédito: O uso de reservas financeiras guardadas na caderneta de poupança oscilou de 22% para 19%, e o uso do cartão de crédito recuou de 15% para 10%.
  • Privação de Consumo: A parcela de usuários que relataram ter deixado de comprar itens básicos do cotidiano para direcionar a verba aos jogos caiu de 19% para 11%.

Para analistas econômicos, essa freada no uso de capitais sensíveis reflete tanto as medidas de restrição impostas pelo governo federal — incluindo bloqueios para beneficiários do Bolsa Família e a proibição de apostas por CPFs negativados vinculados ao programa Desenrola — quanto o próprio esgotamento financeiro decorrente do endividamento.

Ansiedade e Desconfiança Afastam Usuários

Além do fator financeiro, o desgaste psicológico e a crise de credibilidade do setor operam como barreiras psicológicas. Relatos de ex-jogadores evidenciam crises de ansiedade geradas pela inversão de valores emocionais, como torcer contra o próprio time de coração com o único intuito de obter retornos financeiros dentro dos aplicativos.

A desconfiança generalizada também ganhou força após o encerramento da CPI das Bets, concluída em junho de 2025. A investigação legislativa ampliou a percepção pública de que os algoritmos e resultados dos caça-níqueis virtuais e eventos esportivos sofrem manipulações severas. Como consequência, cresce o número de usuários que restringem suas apostas unicamente a bônus gratuitos ofertados pelas empresas por e-mail, recusando-se a injetar dinheiro novo em um ecossistema considerado predatório.