Empresa de IA mais poderosa do mundo, financiada pela CIA e usada para deportações nos EUA, levanta debates sobre privacidade e o limite da inteligência militar
TECNOLOGIA & SEGURANÇA — Toda vez que você clica em um link, deixa um rastro. Para a maioria das empresas, esses dados servem para vender produtos. Para a Palantir, eles servem para encontrar alvos. A companhia americana, que nasceu das cinzas do 11 de setembro e do sistema de segurança do PayPal, consolidou-se em 2026 como a ferramenta de análise de dados mais complexa e polêmica do planeta.
O software da Palantir é o “cérebro” por trás de operações históricas, como a localização do bunker de Osama Bin Ladene, mais recentemente, a definição de alvos militares em conflitos no Oriente Médio. Mas seu crescimento global acende um alerta: até onde vai o poder de uma empresa privada que “enxerga tudo”?
A “Criança Prodígio” da CIA
A trajetória da Palantir é inseparável da inteligência americana. Segundo Michael Steinberger, autor do livro The Philosopher in the Valley, a empresa deu o salto definitivo quando recebeu financiamento da In-Q-Tel, o braço de investimentos de capital da CIA.
“Os engenheiros da Palantir tiveram acesso aos analistas da CIA e, por isso, conseguiram desenvolver o software lado a lado com eles”, explica Steinberger à BBC.
Essa simbiose permitiu criar uma ferramenta capaz de organizar 400 milhões de terabytes de dados produzidos diariamente na web, transformando informações desconexas em inteligência acionável em questão de dias — algo que sistemas governamentais internos raramente conseguem.
Do Combate a Fraudes às Deportações
A origem da tecnologia remete ao PayPal, fundado por nomes como Peter Thiel e Elon Musk. Para conter golpistas russos nos anos 90, a equipe de segurança desenvolveu o software “Igor”. O sucesso foi tamanho que o FBI logo se interessou pela ferramenta.
Hoje, a Palantir não serve apenas a espiões. Suas ferramentas são peças-chave em agências como:
- ICE (Imigração): Utilizado para identificar, localizar e deter imigrantes para deportação.
- CDC (Saúde): Monitoramento de dados epidemiológicos.
- FBI e NSA: Investigações criminais e vigilância de segurança nacional.
Por que a preocupação?
O que assusta especialistas em cibersegurança e direitos civis é o alcance e a falta de transparência. A Palantir muitas vezes entra em cena em momentos de crise, quando governos estão desesperados por resultados. Foi assim em 2014, quando ajudou a capturar os assassinos de um agente da DEA no México em tempo recorde.
A polêmica reside no fato de que o mesmo software que salva vidas ou captura terroristas é o que pode ser usado para monitorar cidadãos comuns, consolidando o que Steinberger chama de “Estado de Vigilância”. Em um mundo onde a IA decide quem é “ameaça”, o julgamento da máquina — e de seus donos — passa a ter poder de vida ou morte.