Em rara entrevista, Eli Hadid fala sobre documentos ligados ao caso Epstein, faz críticas ao setor, aborda saúde mental de modelos e relembra trajetória de 45 anos
Após décadas longe de entrevistas em formato confessional, o empresário Eli Hadid, fundador e CEO da Mega Model Brasil, fez sua primeira — e, segundo ele, última — participação em um podcast. No episódio do Sem Segredo, apresentado por Turco Loco e Ale de Maio, Hadid falou sobre bastidores do mercado da moda, criticou práticas de concorrentes, comentou o caso Jeffrey Epstein e apresentou medidas que diz adotar para proteger sua reputação ao longo de 45 anos de atuação no setor.
“Realmente nunca falei. E esta é a primeira vez que tenho a oportunidade de falar da seriedade do nosso trabalho”, afirmou o empresário no início da entrevista, que contou também com a participação da psicóloga Mariana Fuschini, ligada à agência.
Um dos pontos mais sensíveis do episódio foi a menção ao caso Jeffrey Epstein, financista norte-americano cuja rede de abuso e exploração sexual ganhou repercussão internacional. Hadid afirmou que a Mega Model Brasil aparece de forma elogiosa em documentos do FBI, a partir de um e-mail de 2009 que, segundo ele, demonstraria o rompimento da agência com o produtor Jean-Luc Brunel diante de suspeitas de prostituição.
Ao tratar do tema, o empresário disse ainda que agências brasileiras concorrentes, citadas em documentos tornados públicos, teriam mantido contato com Epstein de forma consciente. Ao longo da entrevista, porém, evitou citar nomes ao comentar outras acusações envolvendo o mercado.
Hadid também relatou episódios que, segundo ele, revelariam práticas abusivas e conivência dentro do setor da moda. Sem identificar publicamente os envolvidos durante o podcast, o empresário mencionou denúncias recebidas sobre condutas de concorrentes, disse ter demitido um funcionário ao tomar conhecimento de um crime grave cometido antes da contratação e criticou a suposta permanência de profissionais com histórico problemático em outras agências.
Em outro momento, insinuou a participação de um banqueiro conhecido como sócio de uma agência de modelos, sem revelar a identidade do empresário nem apresentar detalhes adicionais sobre a acusação.
Ao longo da conversa, o fundador da Mega também dedicou parte do episódio a explicar o que chamou de “protocolo pessoal de conduta”. Segundo ele, há mais de 12 anos não frequenta agências de modelos, não realiza atendimentos sem a presença de secretária e mantém gravação de reuniões em seu escritório. Hadid afirmou ainda que evita contato direto com modelos por mensagens, como forma de resguardar sua imagem e sua atuação profissional.
A entrevista também abriu espaço para uma discussão sobre saúde mental no universo da moda. A psicóloga Mariana Fuschini destacou os impactos emocionais da profissão, especialmente pela forma como imagem, corpo e identidade pessoal se misturam na carreira das modelos.
“Elas são o corpo, são a imagem. Um não profissional vira um não pessoal, uma derrota”, afirmou.
Hadid disse que a Mega foi pioneira ao incorporar atendimento psicológico à rotina da agência, tanto para modelos quanto para funcionários. Ele também afirmou que a empresa antecipou pautas de diversidade no setor, ao incluir profissionais negros, homossexuais e trans em sua estrutura muito antes de o tema ganhar centralidade no mercado da moda.
Em tom mais leve, o empresário relembrou episódios curiosos da carreira, como a ocasião em que recusou representar Brad Pitt no Brasil, ainda no início da trajetória do ator, quando ele atuava como modelo. Hadid também citou projetos de grande alcance comercial, como o Monange Fashion Tour, que, segundo ele, ajudou a ampliar expressivamente as vendas da marca, além de mencionar a participação da agência no desenvolvimento de nomes como Gisele Bündchen, Isabeli Fontana e Ana Beatriz Barros.
Aos 64 anos, Hadid também sinalizou interesse em ingressar na política, embora sem detalhar qual cargo pretende disputar. Entre os temas citados por ele como prioritários estão mudanças na destinação do FGTS e propostas relacionadas à segurança pública.
A entrevista marca uma rara aparição pública de um dos nomes mais influentes do mercado de modelos no país e lança luz sobre um setor historicamente cercado por glamour, mas também por denúncias, disputas e pressões silenciosas.
O episódio completo do Sem Segredo Podcast está disponível nas plataformas Spotify e YouTube.