Elefante Branco de Taguatinga: Celina Leão anuncia ocupação do Centrad após 12 anos de abandono

Por O Brasiliense

Em um movimento estratégico que tenta pôr fim a um dos maiores imbróglios patrimoniais e jurídicos da história do Distrito Federal, a governadora Celina Leão (PP) anunciou que o Governo do DF (GDF) finalmente fará uso do Centro Administrativo em Taguatinga, o Centrad. A estrutura, um gigantesco complexo de prédios erguido na região administrativa de Taguatinga, está completamente vazia há 12 anos — desde a sua polêmica “inauguração” — e nunca foi utilizada de forma efetiva pelo poder público.

A decisão ocorre em um momento de asfixia financeira institucional e faz parte de um pacote habitacional e imobiliário desenhado para salvar os cofres do Banco de Brasília (BRB). De acordo com o plano divulgado pelo Palácio do Buriti, o processo de migração terá como pioneira a Secretaria de Obras e Infraestrutura. O objetivo central do GDF é estancar os gastos milionários com os aluguéis de imóveis privados que atualmente abrigam as pastas do governo no Plano Piloto. O próprio gabinete da governadora também está listado para se transferir para a estrutura de Taguatinga. Contudo, o governo ainda não detalhou os custos envolvidos com a compra de mobiliário e a manutenção emergencial de espaços que acumulam mais de uma década de ociosidade.

O Histórico de uma PPP Bilionária que Ruiu

O Centrad nasceu em 2009 sob o formato de uma Parceria Público-Privada (PPP) celebrada entre o GDF e um consórcio privado composto pelas construtoras Via Engenharia e Odebrecht. O contrato original possuía cifras astronômicas: previsão de R$ 6 bilhões ao longo de 22 anos de concessão.

Pelo desenho inicial do projeto:

  • O consórcio privado ergueria as torres de escritórios.
  • Após a entrega, as empresas assumiriam serviços de manutenção, vigilância, limpeza e conservação do espaço.
  • Em contrapartida a esses serviços, o GDF pagaria uma contraprestação mensal de R$ 17 milhões às empreiteiras.

Como as irregularidades impediram que as secretarias chegassem a ocupar as salas, o GDF nunca chegou a efetuar os pagamentos das parcelas mensais. Por outro lado, as construtoras alegam que desembolsaram cerca de R$ 1,5 bilhão na execução física da obra e tentam recuperar o montante investido nas mesas de negociação com o Executivo.

A situação travou judicialmente em 2020, quando a 4ª Vara de Fazenda Pública do DF emitiu uma liminar proibindo o governo local de repassar qualquer centavo ao consórcio. Em 2022, o contrato de PPP foi oficialmente anulado e desfeito. Desde então, o GDF arca sozinho com os custos de segurança de um complexo fantasma que, abandonado, virou alvo frequente de invasões, vandalismo e depredação.

⏳ Linha do Tempo: 12 Anos de Promessas e Impasses

A trajetória do Centrad é pavimentada por promessas de ocupação de sucessivos governantes, heranças malditas e escândalos desvelados pela Operação Lava Jato:

  • 2009: As obras são iniciadas sob o modelo de Parceria Público-Privada (PPP).
  • 2014: No último dia de seu mandato, o então governador Agnelo Queiroz realiza a “inauguração” do Centrad com as obras visivelmente inacabadas.
  • 2015: O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) barra a ocupação do complexo e nega a emissão da Carta de Habite-se por irregularidades técnicas. O governador Rodrigo Rollemberg desiste oficialmente de mudar o Executivo para a estrutura.
  • 2017: No auge da Lava Jato, o ex-executivo da Odebrecht, João Antônio Pacífico Ferreira, revela em delação premiada que as negociações do Centrad contaram com “acordos de mercado” e repasse bilionário para caixa dois de campanhas políticas. O GDF monta uma comissão para anular o contrato.
  • 2019: Ibaneis Rocha assume o governo e promete que o Centrad será ocupado “de um jeito ou de outro” nos primeiros meses. O Ministério Público de Contas (MPC) reage e pede ao Tribunal de Contas (TCDF) o bloqueio da mudança por falta de vantagem econômica comprovada.
  • 2020: A Justiça proíbe qualquer repasse de verbas do GDF para as construtoras do consórcio.
  • 2022: O GDF consegue na Justiça a anulação definitiva do contrato de PPP.
  • 2024–2025: O governo ensaia uma série de retomadas. Editais de concessão da Terracap e obras de mobilidade no entorno de Taguatinga são prometidos consecutivamente por secretários e pelo governador Ibaneis Rocha, mas as propostas esbarram em atrasos na produção documental das estatais.

A decisão anunciada por Celina Leão marca a tentativa de virar a página de um dos capítulos mais controversos do planejamento urbano e da política candanga, restando saber se a estrutura abandonada terá condições técnicas de receber o funcionalismo a curto prazo.