EUA alertam Brasil sobre ofensiva que preparam contra CV e PCC

Relato de reunião com Gabriel Galípolo indica que os Estados Unidos estudam enquadrar as duas facções como organizações terroristas; no Brasil, o tema esbarra em divergências jurídicas e diplomáticas

A possível guinada dos Estados Unidos no combate ao crime organizado brasileiro voltou a tensionar a relação com Brasília. Segundo informação publicada pela coluna de Paulo Cappelli, do Metrópoles, autoridades norte-americanas disseram ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que Washington caminha para classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras. A sinalização, se confirmada, empurra o debate para além da segurança pública e o coloca no terreno mais sensível da diplomacia e das finanças. 

A hipótese não surgiu do nada. Em maio de 2025, a Reuters revelou que o governo brasileiro já havia rejeitado um pedido formal do Departamento de Estado para enquadrar PCC e CV como grupos terroristas. Na ocasião, o secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubo, afirmou que, sob a legislação brasileira, o país não trata essas facções como terrorismo, mas como organizações criminosas infiltradas na sociedade. Já em abril deste ano, a própria Reuters informou que, embora Brasil e EUA tenham lançado uma ação conjunta contra o crime organizado, seguem as divergências sobre o melhor enquadramento para essas facções. 

O que está em jogo não é apenas uma troca de rótulo. A designação como Foreign Terrorist Organization (FTO) é, segundo o Departamento de Estado, um instrumento para cortar apoio, financiamento e redes de suporte a grupos enquadrados como terroristas. Na prática, isso amplia o alcance de sanções e pressões financeiras sob jurisdição americana — exatamente o argumento que Washington vem usando ao associar PCC e CV a lavagem de dinheiro, tráfico e atuação transnacional. 

Do lado brasileiro, a resistência tem duas camadas. A primeira é jurídica: a lei nacional adota uma definição mais restrita de terrorismo, ligada a motivações específicas e não, em regra, ao crime organizado lucrativo. A segunda é política: no Planalto e no Ministério da Justiça, prevalece a leitura de que o enfrentamento a facções deve avançar por cooperação policial, inteligência e rastreamento financeiro, sem abrir margem para uma lógica externa de segurança nacional aplicada ao território brasileiro. 

É por isso que o tema provoca ruído além dos gabinetes de segurança. Caso a classificação avance, o impacto tende a ultrapassar o mundo do crime e alcançar bancos, empresas e operações com algum grau de exposição ao sistema financeiro internacional. O debate, portanto, não é apenas sobre endurecimento penal. É também sobre soberania, alcance extraterritorial das sanções dos EUA e os limites de uma agenda de segurança que Washington tenta exportar para a América Latina.