Presidente associa ambiente virtual à escalada do ódio, fala em defesa da soberania e volta a mirar bets e big techs
Em Barcelona, em meio a uma agenda internacional voltada à cooperação entre Brasil e Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o palanque externo para enviar um recado interno: o governo pretende apertar o cerco sobre as plataformas digitais. Ao defender uma regulação mais firme, Lula disse que o Planalto vai “trabalhar muito” contra ambientes virtuais que, segundo ele, ameacem a democracia, a soberania nacional e até a saúde mental da população.
A fala não veio em tom burocrático. Lula conectou diretamente a escalada da violência ao avanço do discurso de ódio na internet e descreveu o mundo virtual como um espaço tóxico, especialmente para os jovens. A mensagem, aliás, foi além da crítica moral às redes: o presidente tratou a regulação digital como tema de Estado, não apenas de tecnologia.
No centro do raciocínio está uma preocupação que o governo tenta transformar em agenda política: a de que a desinformação, o extremismo e a manipulação algorítmica deixaram de ser apenas distorções do debate público e passaram a afetar a própria estabilidade democrática. Ao dizer que é preciso “regular tudo que for digital”, Lula vinculou essa ofensiva à proteção da soberania brasileira e ao combate a interferências externas, sobretudo em ano eleitoral.
O presidente também voltou a mirar as gigantes de tecnologia com uma retórica já conhecida, mas agora em tom mais agudo. Sem regras, afirmou, as big techs podem consolidar uma nova forma de poder concentrado, baseada na extração de dados, na monetização da atenção e na influência política exercida por poucos grupos privados. Na declaração oficial divulgada pelo Planalto, Lula chamou esse processo de “colonialismo digital” e disse que dados pessoais vêm sendo usados para concentrar poder econômico e político nas mãos de bilionários.
A crítica às plataformas veio acompanhada de outro alvo frequente do presidente: as bets. Em Barcelona, Lula voltou a associar o avanço das apostas on-line ao endividamento das famílias e ao desgaste social provocado por um ambiente digital sem freios. Segundo a Agência Brasil, ele disse que as apostas estão entre os fatores que empurram a população a gastar o que não pode, reforçando a defesa de regras mais duras para esse mercado.
O discurso, no fundo, tenta organizar sob o mesmo guarda-chuva três frentes que o governo enxerga como conectadas: democracia, proteção social e soberania. Ao tratar rede social, aposta eletrônica e influência estrangeira como partes de um mesmo problema, Lula sinaliza que a regulação digital deve ganhar espaço mais central no debate político brasileiro de 2026. E não apenas como pauta técnica, mas como uma disputa de poder sobre quem controla o ambiente onde hoje se formam opinião, vício, consumo e radicalização.