Levantamento da Abrasel aponta queda nos pedidos de pratos principais e sobremesas, avanço das miniporções e maior procura por opções leves e bebidas sem álcool
O avanço do uso de medicamentos para emagrecimento já começa a mudar o comportamento dos clientes em bares e restaurantes no Brasil. Pesquisa divulgada pela Abrasel nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, mostra que 61% dos empresários do setor dizem ter percebido alterações no consumo associadas a remédios como Ozempic e Mounjaro. Segundo a entidade, o movimento ainda é visto como gradual, com efeitos mais fortes sobretudo em estabelecimentos de menor porte.

Entre os impactos mais visíveis está a redução de pedidos considerados mais calóricos. De acordo com o levantamento, 56% dos empresários notaram mudanças no volume de pedidos de pratos principais, enquanto 65% identificaram alterações no consumo de sobremesas. Nesse último caso, a Abrasel afirma que um em cada cinco relatou forte queda na demanda. A pesquisa também mostra crescimento da busca por miniporções e por escolhas mais leves: 64% observaram aumento nos pedidos de porções menores, mais de 70% relataram maior frequência de opções leves e 64% disseram que cresceu a prática de compartilhar pratos principais.
A mudança também chegou às bebidas. A Abrasel informa que 65% dos empresários perceberam alterações no consumo de bebidas alcoólicas, enquanto 53% registraram crescimento nas opções não alcoólicas. Segundo a entidade, a substituição por bebidas sem álcool ou com menor teor alcoólico aparece com mais consistência, especialmente entre estabelecimentos de maior faturamento.
O novo padrão de consumo já pressiona a estratégia dos negócios. Ainda conforme o levantamento, quatro em cada dez empresários afirmam que não conseguiram compensar a redução no volume consumido por cliente. Entre as respostas adotadas pelo setor, 26% passaram a investir em combos e menus estruturados, 22% buscam estimular maior frequência de visitas e 21% apostam na oferta de itens com maior valor agregado.
Ao comentar a tendência, o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, afirmou que o movimento pode ganhar força nos próximos meses, especialmente após o fim da patente da semaglutida no Brasil, ocorrido em 20 de março. A Anvisa, no entanto, esclareceu que medicamentos com semaglutida exigem registro para chegar ao mercado e que, no caso dos produtos biológicos já registrados no país, não existe registro como genérico. Na data do fim da patente, a agência informou ter oito processos em análise para novos medicamentos com o mesmo princípio ativo, além de outros pedidos aguardando início de avaliação.
O cenário indica que o setor de alimentação fora do lar já começa a se reorganizar diante de um consumidor que continua saindo para comer, mas faz escolhas mais moderadas. Para bares e restaurantes, o desafio agora é adaptar cardápios, formatos de oferta e estratégias comerciais a um perfil que tende a buscar menos excesso, mais controle e maior seletividade no consumo.