O prefeito de Surubim (PE), Cléber Chaparral (União Brasil), que virou centro dos holofotes no último fim de semana ao subir em um palco e chamar o cantor sertanejo Gusttavo Lima de “ladrão” devido ao cancelamento de uma apresentação junina, enfrenta sérios problemas com a Justiça Eleitoral. O chefe do Executivo municipal é réu em um processo que apura um suposto esquema de compra de votos arquitetado durante as eleições municipais de 2024.
A denúncia, formalizada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), aponta o gestor como o mentor e o principal beneficiário de uma rede de corrupção eleitoral. Além dele, figuram como réus no mesmo caso o apoiador Jonas Luiz do Nascimento e a esposa do prefeito, Juliana Barbosa da Silva Aguiar, que exerce o cargo de prefeita na cidade vizinha de Casinhas (PE).
Dinheiro vivo e “Kit de Corrupção”: Como operava o esquema
O detalhamento da denúncia aponta que o grupo oferecia vantagens ilícitas a eleitores de Surubim com o objetivo direto de angariar apoio político e votos. A lista de agrados incluía:
- Distribuição de dinheiro em espécie;
- Doação de materiais de construção civil;
- Financiamento de exames clínicos e promessas de cirurgias (como procedimentos de catarata) para terceiros.
O caso começou a vir à tona após uma abordagem preventiva da polícia. Ao notar a aproximação de uma viatura que dava suporte à comitiva de Juliana, o réu Jonas Luiz fugiu a pé, abandonando um veículo. No interior do automóvel, os agentes encontraram o que o Ministério Público classificou como um “kit de corrupção eleitoral profissionalizada”: cadernos com listas completas de eleitores divididos por localidades, anotações de promessas de campanha e R$ 23,7 mil em dinheiro vivo.
Dado o teor dos materiais, o processo foi enviado para investigação da Polícia Federal (PF), que concluiu haver respaldo material consistente e um conjunto documental coerente de circulação de vantagens indevidas em contexto eleitoral. Na época, Chaparral ocupava o cargo de deputado estadual, mas a Justiça negou o foro por prerrogativa de função por entender que as irregularidades investigadas não possuíam nexo causal com o mandato que ele exercia na Assembleia Legislativa. O MPE pede a condenação dos envolvidos e o pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos.
O outro lado: Defesa alega inocência e rebate acusações
Procurada pela coluna para comentar as acusações, a equipe de defesa jurídica do prefeito Cléber Chaparral rebateu integralmente o teor da denúncia criminal.
Os advogados argumentaram que os fatos descritos na peça do Ministério Público já foram exaustivamente debatidos e analisados no âmbito de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE). Segundo a defesa, após uma extensa fase de instrução e análise de provas, a referida ação foi julgada totalmente improcedente, o que, na visão da defesa, afasta de forma cabal qualquer existência de abuso de poder político, distribuição de dinheiro ou compra de votos na localidade.
Contexto: O atrito público com o “Embaixador”
O nome do prefeito ganhou repercussão nacional após ele discursar irritado no palco do São João de Surubim. Na ocasião, ele chamou Gusttavo Lima de “ladrão do dinheiro do povo” e exigiu a devolução imediata do cachê contratual de R$ 1,353 milhão após o artista cancelar, pela segunda vez, sua apresentação na cidade. Chaparral chegou a ordenar que os caminhões com os equipamentos da banda do sertanejo fossem retidos no município até uma retratação.
Por meio de suas redes sociais, Gusttavo Lima rebateu as acusações justificando o sumiço devido a um quadro severo de intoxicação alimentar acompanhado de forte diarreia. O cantor classificou a fala do político como “pesada e injusta”, afirmou que o dinheiro do cachê bruto já foi integralmente devolvido e acusou a gestão de Surubim de cometer o crime de cárcere privado contra a sua equipe técnica antes de liberá-la para deixar a cidade.