Ashley St. Clair, antiga voz influente da direita norte-americana, revela bastidores de conteúdos pagos, campanhas artificiais de difamação e a influência do bilionário na sua trajetória política.
Uma das vozes jovens que já foi das mais visíveis do universo MAGA (Make America Great Again) transformou-se em uma de suas críticas mais incômodas. Ashley St. Clair, que acumulou mais de um milhão de seguidores na rede social X, veio a público expor o que descreve como os bastidores de uma máquina de propaganda digital altamente coordenada, baseada em conteúdos pagos e redes de influência que sustentam a direita dos Estados Unidos na internet. O caso ganhou ainda mais repercussão por envolver o empresário Elon Musk, com quem St. Clair afirma ter tido um filho.
Através de vídeos publicados no TikTok — utilizando o formato popular “get ready with me” (enquanto se maquia diante da câmera) —, a ex-influenciadora detalhou o funcionamento de um ecossistema que simulava reações espontâneas, mas que operava sob forte controle de bastidores.
A Ilusão do Conteúdo Orgânico
De acordo com os relatos de St. Clair, os criadores de conteúdo do movimento se apresentavam ao público como vozes independentes. Na prática, contudo, eles funcionavam de forma articulada:
- Grupos de Coordenação: Influenciadores, assessores políticos e figuras da órbita de Donald Trump dividiam espaço em chats privados.
- Mensagens Coordenadas: Nesses grupos, circulavam instruções diretas, estratégias de comunicação e ordens expressas para impulsionar determinados temas de interesse.
- Ataques Direcionados: A rede operava campanhas virais para atacar opositores políticos e figuras públicas do meio empresarial e midiático, tendo como alvos nomes como Sam Altman (CEO da OpenAI) e o jornalista Don Lemon.
- Falsa Espontaneidade: Os conteúdos eram despejados de forma simultânea nas plataformas digitais, criando a falsa impressão de que se tratava de um movimento orgânico de apoio a Trump.
O Papel de Elon Musk na Radicalização
Outro ponto central das denúncias diz respeito à proximidade com Elon Musk. St. Clair aponta o bilionário não apenas como parte de sua vida pessoal, mas como peça decisiva em sua guinada ideológica.
Segundo a autora, Musk reforçava visões políticas conservadoras e insistia frequentemente em teses como a da baixa natalidade ser um “problema civilizacional” — uma pauta que ela própria passou a replicar em suas redes. Além disso, o relacionamento e o convívio com o dono do X funcionavam como um selo de legitimidade no ecossistema MAGA, inflando seu poder de influência e levando-a a adotar posições cada vez mais radicais.
A Polarização como Modelo de Negócio
A ex-influenciadora acusa o movimento de ter transformado o embate político e a mobilização emocional em uma mina de ouro altamente lucrativa. Como exemplo dessa engrenagem de monetização, ela cita perfis de grande alcance como o “Libs of TikTok”, especializado em amplificar controvérsias para inflamar o público conservador.
“Grande parte da dinâmica política nas redes era artificial e orientada por interesses económicos”, afirma St. Clair, que admite ter participado ativamente da disseminação desses discursos agressivos e expressa arrependimento por seu papel no passado.
Reação e Ceticismo
Como era de se esperar, a transformação de Ashley St. Clair em uma “desertora” do trumpismo digital dividiu opiniões. Antigos aliados políticos e influenciadores da ala conservadora receberam as denúncias com profundo ceticismo, acusando-a de oportunismo e sugerindo que os ataques à engrenagem seriam uma reação motivada por ressentimentos ou rompimentos em sua vida pessoal com Musk e com o próprio grupo.
St. Clair rebate as acusações afirmando que seu desembarque foi um processo gradual de desilusão ao perceber que protestos e campanhas eram artificialmente financiados apenas para gerar engajamento midiático e manipulação pública.