Brasília está entre as cidades com maior número de beneficiários do país; programa cobre a recarga do botijão de 13 quilos, mas não inclui vasilhame nem frete
Em um cenário em que o gás de cozinha continua pesando no orçamento doméstico, 130.898 famílias do Distrito Federal serão atendidas, em abril, pelo programa Gás do Povo, do governo federal. No DF, o benefício deve alcançar mais de 398 mil pessoas, com investimento superior a R$ 12,6 milhões apenas neste mês.

O dado chama atenção não apenas pelo volume de lares contemplados, mas pelo perfil de quem sustenta essa política na ponta: 95,9% das famílias beneficiadas no Distrito Federal têm mulheres como responsáveis familiares. Na prática, o programa acaba funcionando também como uma rede de alívio para mães, avós e chefes de família que administram, quase sempre no limite, a conta da sobrevivência dentro de casa.
A nova rodada do benefício integra uma operação nacional que, em abril, atende cerca de 15 milhões de lares em todos os municípios brasileiros, com aporte de mais de R$ 1,5 bilhão. Desde a última sexta-feira, a Caixa Econômica Federal começou a liberar o vale-recarga para aproximadamente 206 mil famílias, que podem retirar o gás de cozinha diretamente em revendas credenciadas.
No ranking das cidades com maior número de contemplados, Brasília aparece entre os principais polos do programa, atrás apenas de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador e Manaus. O dado ajuda a dimensionar o tamanho da demanda local por uma política pública que, embora simples em aparência, toca um dos pontos mais sensíveis da vida cotidiana: o direito de cozinhar.
Mais do que subsidiar um item básico, o Gás do Povo foi desenhado como instrumento de combate à chamada pobreza energética — realidade que empurra famílias de baixa renda para alternativas improvisadas e perigosas, como lenha, carvão e querosene. Além do impacto econômico, esse tipo de substituição eleva o risco de acidentes domésticos, queimaduras e doenças respiratórias, sobretudo entre mulheres e crianças.
O programa garante a recarga gratuita do botijão de 13 quilos, mas há uma ressalva importante: o benefício não cobre o vasilhame nem o frete. Para ter acesso, a família precisa estar no Cadastro Único com dados atualizados nos últimos 24 meses, ter renda per capita de até meio salário mínimo, CPF regular do responsável familiar e composição mínima de duas pessoas. Famílias do Bolsa Família estão entre as prioritárias.
A política vem sendo implementada em etapas desde novembro de 2025. Na primeira fase, alcançou um milhão de famílias em dez capitais. Em janeiro deste ano, foi ampliada para as demais capitais e, depois, incorporou automaticamente famílias que já recebiam benefício semelhante no modelo anterior. Hoje, segundo o governo, o programa está presente em todo o território nacional, com mais de 24 mil revendas credenciadas.
Regionalmente, o Nordeste concentra o maior número de famílias atendidas, com 6,76 milhões de lares, seguido do Sudeste (4,16 milhões), Norte (2,04 milhões), Sul (1 milhão) e Centro-Oeste (824,1 mil).
Outro traço marcante da política aparece no recorte de gênero. Em todo o país, 96,1% dos lares contemplados têm mulheres como responsáveis familiares. O índice do DF, de 95,9%, está entre os mais altos do Brasil, atrás de Goiás e à frente de estados como São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Ao ampliar o número de beneficiários e reajustar os valores de referência do programa, o governo aposta também em aumentar a adesão de revendas de gás, especialmente em municípios ainda desatendidos. A expectativa oficial é que a medida fortaleça a capilaridade da política e reduza gargalos de acesso.
No fim das contas, o Gás do Povo atua onde a inflação costuma ser mais cruel: dentro da cozinha. E, no Distrito Federal, os números de abril mostram que esse socorro tem endereço certo — a casa de milhares de famílias chefiadas por mulheres, para quem o botijão não é detalhe de orçamento, mas condição básica de dignidade.