Secretário de Estado norte-americano atribui sobretaxa ao “ego de Lula”, enquanto governo brasileiro repudia medida, exibe histórico de 30 reuniões e promete retaliar usando a Lei de Reciprocidade
O clima político e comercial entre Brasília e Washington atingiu o seu ponto mais crítico. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, subiu o tom nesta quinta-feira (16) ao responsabilizar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela imposição da nova tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros. A medida, que entrará em vigor na próxima quarta-feira, 22 de julho, foi oficializada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) sob ordens diretas do presidente Donald Trump.
Em uma publicação na rede social X, Rubio afirmou que o governo brasileiro rejeitou intencionalmente as vias de conciliação:
“Não haja confusão sobre o motivo: o Presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.
O Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, adotou um tom técnico, mas firme, declarando que as extensas negociações ao longo do último ano falharam em sanar os problemas identificados, deixando claro que os americanos continuam abertos a dialogar, desde que o Brasil promova “mudanças há muito necessárias”.
Planalto rebate e exibe lista com 30 reuniões bilaterais
A reação de Brasília foi imediata e enérgica. Classificando a data de ontem (15) como um “marco lastimável” na história das relações diplomáticas entre as duas nações, o Palácio do Planalto repudiou a narrativa de Washington de que teria se esquivado do diálogo.
Para desmentir as acusações de Rubio, o Ministério das Relações Exteriores revelou os bastidores da negociação:
- Mais de 30 reuniões: O governo brasileiro registrou mais de 30 contatos diplomáticos presenciais, virtuais ou telefônicos desde o início da disputa comercial, em 2025.
- Contatos diretos: Desse total, 11 rodadas de negociação ocorreram especificamente com o próprio Secretário de Estado, Marco Rubio, e com o embaixador Jamieson Greer.
- Iniciativa unilateral: Diplomatas brasileiros afirmaram à imprensa que o Brasil sempre tomou a iniciativa de propor saídas, mas que os norte-americanos nunca apresentaram contrapropostas concretas.
O Pix e as 6 áreas que motivaram a sanção
A sobretaxa é o resultado prático de uma investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O relatório final concluiu que o Brasil adota “práticas irrazoáveis” que restringem o comércio norte-americano em seis frentes:
- Comércio digital e pagamentos eletrônicos: O documento cita as regras do Pix mais de 20 vezes, acusando-as de prejudicar empresas financeiras e de tecnologia dos EUA.
- Decisões judiciais: Críticas diretas a ordens judiciais brasileiras sigilosas que determinavam a remoção de conteúdo digital em redes sociais norte-americanas (como X, Meta e Google).
- Combate à corrupção e propriedade intelectual: Aponta fragilidades na aplicação de leis de combate a subornos e lentidão do INPI no registro de patentes.
- Etanol: Alega falta de reciprocidade brasileira no acesso ao mercado local de biocombustíveis.
- Tarifas preferenciais: Consideradas desleais para exportadores dos EUA.
- Desmatamento ilegal: Classificado como uma negligência que gera vantagens competitivas espúrias para o agronegócio do Brasil.
O que é inegociável: Fontes econômicas do Palácio do Planalto admitem que o Brasil tentou realizar concessões comerciais, mas considerou qualquer alteração na regulamentação soberana do Pix e do Banco Central como uma linha vermelha inultrapassável.
Como a tarifa funciona e quais produtos entram nas exceções
A nova alíquota de 25% funciona como um adicional cumulativo sobre as taxas normais de importação.
A sobretaxa deve afetar aproximadamente 20% de tudo o que o Brasil exporta para os Estados Unidos. Itens cruciais para a cadeia de suprimentos interna norte-americana (e cuja isenção foi defendida por empresas como Coca-Cola e Tesla) foram mantidos fora da taxaçã