Trabalho por aplicativos cresce 36,8% e atinge 2 milhões de pessoas no Brasil, aponta IBGE

Levantamento mostra expansão expressiva do setor desde 2022; transporte de passageiros lidera ocupações, mas desafios sobre previdência e regulação trabalhista continuam no centro do debate.

BRASÍLIA — O Brasil registrou 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais de serviços, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O contingente corresponde a 1,9% da população ocupada no país e representa um crescimento de 36,8% em comparação a 2022, marco inicial da série histórica da pesquisa.

Do total de trabalhadores plataformizados, a esmagadora maioria — 1,8 milhão — utiliza os aplicativos em sua ocupação principal. Outros 182 mil exercem atividades por meio de plataformas como ocupação secundária, enquanto cerca de 28 mil atuam nesse modelo em ambas as frentes. Na comparação direta com o ano anterior, o número de trabalhadores na ocupação principal apresentou alta de 9,1%.

Principais Setores e Perfil dos Trabalhadores

transporte de passageiros permanece absoluto como a principal atividade realizada via aplicativos, reunindo 1,2 milhão de trabalhadores (58,9% do total), sendo a grande maioria atuando em serviços diferentes de táxi, além de 232 mil taxistas.

As plataformas de entrega de comida e produtos ocupam o segundo lugar, com 585 mil pessoas (29,9%), destacando-se os entregadores — grupo que registrou o maior salto de crescimento entre 2024 e 2025 na ocupação principal, passando de 274 mil para 325 mil pessoas (uma alta de 18,6%). Por fim, os aplicativos de serviços gerais e profissionais reuniam 313 mil trabalhadores (16%).

O perfil predominante continua sendo masculino e jovem:

  • Gênero: Os homens representam 84,4% dos trabalhadores por plataformas, enquanto as mulheres somam 15,6% — um contraste acentuado com o mercado de trabalho tradicional, onde a presença feminina chega a 41,8%.
  • Faixa etária: A maior concentração está entre pessoas de 25 a 39 anos, que respondem por 47% da categoria.
  • Previdência Social: O estudo aponta vulnerabilidade na rede de proteção social. Apenas 34% dos trabalhadores de aplicativos contribuem para a Previdência, índice bem abaixo dos 63% registrados entre os trabalhadores não plataformizados.

Desafios da Regulação e Proteção Social

O avanço expressivo do modelo reacende o debate jurídico sobre a necessidade de novas regras trabalhistas. Para o advogado trabalhista Tomaz Nina, embora a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) possua instrumentos gerais analisados pela Justiça para caracterizar vínculos de emprego, o país carece de uma legislação específica para o setor.

Para o especialista, o modelo exige equilíbrio para lidar com a autonomia e a gestão por algoritmos sem cair em extremos: “É preciso evitar os dois extremos: de um lado, deixar esses trabalhadores sem uma proteção mínima; de outro, simplesmente transpor para esse modelo toda a estrutura da relação de emprego tradicional”, avalia.

Rodapé — O Brasiliense