Subnotificação invisível: 29% das brasilienses sofrem agressões domésticas sem identificar o crime

Atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero expõe distância entre episódios vivenciados no DF e registros que chegam aos órgãos oficiais

O Brasiliense — Uma parcela expressiva das mulheres no Distrito Federal vivencia situações de abuso em seu cotidiano sem associá-las espontaneamente à violência doméstica. Dados atualizados do Mapa Nacional da Violência de Gênero — plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Instituto Natura e Gênero e Número —, com base na 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher do DataSenado, revelam que 29% das moradoras da capital vivenciaram agravo físico, psicológico ou moral nos últimos 12 meses, mas não rotularam o episódio como agressão.

O índice do DF acompanha o patamar nacional, também fixado em 29%, evidenciando um gargalo no alcance das políticas públicas: a ausência de autorreconhecimento da vítima como sujeito de direitos e de proteção legal.

Retrato da Violência no DF e Impactos Sociais

O estudo do DataSenado traz dados detalhados sobre o histórico e a dinâmica das relações abusivas no Distrito Federal:

  • Prevalência e Reincidência: 31% das brasilienses relatam já ter sofrido violência doméstica provocada por homem ao longo da vida, sendo que 10% vivenciaram o problema nos 12 meses anteriores à entrevista. Entre as vítimas, 16% continuam convivendo com o agressor e 46% moram sob o mesmo teto.
  • Tipos de Abuso: Das mulheres que declararam o crime, 91% relataram sofrer violência psicológica, 82% física e 73% moral. O companheiro ou marido figurou como autor em 48% dos relatos.
  • Gatilhos Alegados: Em situações mais graves, ciúmes (51%), inconformismo com o término (48%) e embriaguez do agressor (43%) foram os fatores predominantes apontados.
  • Sequelas na Rotina: A agressão motivou o fim da relação para 73% das mulheres afetadas. Além disso, o abuso impactou o convívio social (73%), a rotina diária (61%), o trabalho ou geração de renda (44%) e os estudos (42%).

Desconhecimento da Lei e Cenário Nacional

Embora equipamentos públicos como a Delegacia da Mulher (conhecida por 98% das entrevistadas) e o Ligue 180 (81%) tenham alta aceitação no DF, o domínio sobre a legislação ainda é superficial: 61% afirmam conhecer pouco a Lei Maria da Penha, e 66% conhecem pouco as medidas protetivas de urgência.

No cenário nacional, o levantamento indica que 93,6% das brasileiras vitimadas (26,84 milhões) estão na “zona cega” das estatísticas — ou por não identificarem a agressão como tal (87%) ou por não acionarem as autoridades policiais após o ocorrido. Especialistas que coordenam a pesquisa reforçam que ampliar a rede física de atendimento é insuficiente sem campanhas educativas que capacitem as mulheres a identificar e nomear os primeiros sinais de abuso.

Acesse o Mapa e a Pesquisa.

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