Mesmo com divisões ideológicas profundas, os oito deputados federais da capital deixaram divergências de lado e fecharam questão a favor dos trabalhadores
Por Redação O Brasiliense
A histórica aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a jornada de trabalho 6×1 na Câmara dos Deputados registrou um feito raro na política da capital federal. Diante de um plenário polarizado e sob forte pressão de setores patronais, os oito deputados federais que compõem a bancada do Distrito Federal votaram em bloco e de forma 100% unânime a favor da redução da jornada para o modelo 5×2 (cinco dias de trabalho para dois de descanso).
A coesão brasiliense chamou a atenção nos bastidores do Congresso por unir, sob o mesmo painel de votação “Sim”, parlamentares de campos políticos diametralmente opostos — incluindo nomes da esquerda aliada ao Palácio do Planalto e expoentes da oposição conservadora ligada ao PL.
Quem são os deputados do DF que apoiaram a proposta?
Os representantes do Distrito Federal seguiram a tendência majoritária da Câmara, que carimbou o texto com 472 votos a favor no primeiro turno e 461 no segundo. Veja a lista completa de deputados da capital que chancelaram o fim da escala 6×1:
- Alberto Fraga (PL)
- Bia Kicis (PL)
- Erika Kokay (PT)
- Fred Linhares (Republicanos)
- Julio Cesar Ribeiro (Republicanos)
- Professor Reginaldo Veras (PV)
- Rafael Prudente (MDB)
- Rodrigo Rollemberg (PSB)
A batalha dos destaques e o xadrez pré-eleitoral
Apesar do apoio integral da bancada local, a aprovação do texto-base não ocorreu sem sobressaltos e exigiu jogo de cintura da base governista. Durante a sessão, o partido de oposição PL protocolou um “destaque de preferência” para tentar resgatar a proposta embrionária da deputada Erika Hilton (PSol-RJ), que fixava uma jornada de 36 horas em escala 4×3.
A investida, liderada pelo deputado Sóstenes Cavalcante sob o argumento de “não deixar o povo ser enganado”, foi interpretada pela cúpula governista e pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-BA), como uma provocação tática para desidratar o consenso e inviabilizar o pacto fiscal da reforma. Para neutralizar a manobra, o líder do Governo, Paulo Pimenta (PT-RS), costurou uma emenda aglutinativa de última hora baseada no relatório moderado de Léo Prates (Republicanos-BA), isolando os protestos radicais e consolidando a goleada de votos no plenário.
A pressa em liquidar a fatura na Câmara está diretamente ligada ao calendário político de 2026: a pauta é tratada como prioridade absoluta de apelo popular tanto para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto para a consolidação de Hugo Motta às vésperas do período eleitoral.
O que muda na rotina do trabalhador?
O texto aprovado pela Câmara prevê uma transição em degraus para que a economia se adapte às novas cargas horárias:
[Hoje: 44h semanais] ──► [Em 60 dias: 42h semanais] ──► [Em 14 meses: 40h semanais]
- A nova folga: A escala passa a ser obrigatoriamente de 5 dias trabalhados por 2 de descanso, sendo um deles preferencialmente aos domingos.
- Corte salarial protetivo: Profissionais celetistas com remunerações que superem dois tetos e meio do INSS (cerca de R$ 22 mil) ficam excluídos da mudança de jornada. A regra protetiva não se aplica a servidores de estatais e servidores públicos em geral, que terão o benefício mantido independentemente do salário.
- Impacto público e MEIs: Contratos vigentes de terceirização com entes federativos terão até um ano para fazer aditamentos de jornada. Para mitigar o impacto em microempreendedores (MEI) e pequenas empresas, uma futura lei complementar irá balizar compensações, como o aumento do teto de faturamento anual.
Senado discute “modelo americano” por hora trabalhada
Após cruzar a Praça dos Três Poderes, a PEC ingressa agora em terreno espinhoso e imprevisível. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem evitado declarações públicas e sofre forte assédio de entidades da indústria e do comércio.
A ala de oposição no Senado já articula estratégias para desacelerar o ritmo da matéria através de pedidos de comissões especiais. Mais do que tempo, senadores independentes e conservadores planejam desfigurar o projeto com uma emenda que autorize o cálculo de salários por hora efetivamente trabalhada — um modelo flexível inspirado na legislação trabalhista dos Estados Unidos, o que gera forte resistência de sindicatos e partidos de esquerda.