O nó das Big Techs: por que Moraes segue no radar da ala trumpista

Mais do que o caso Bolsonaro, o embate do ministro com plataformas digitais ajuda a explicar a tensão persistente entre Washington e Brasília

Se o nome de Alexandre de Moraes continua gerando desconforto em setores do governo Trump, uma parte importante dessa fricção passa menos pelo processo de Jair Bolsonaro e mais pelo embate do ministro com as Big Techs. A sanção aplicada pelos EUA em julho de 2025 já citava uma suposta campanha de “censura” contra pessoas e empresas americanas, mostrando que, para Washington, o debate não se limita ao campo penal brasileiro. 

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O caso mais emblemático foi o do X, de Elon Musk. Em 2024, a plataforma ficou temporariamente suspensa no Brasil por descumprimento de decisões do STF e só conseguiu retomar o serviço depois de cumprir exigências judiciais e quitar multas pendentes. O episódio projetou Moraes internacionalmente como um dos principais defensores de uma regulação mais dura sobre redes sociais e conteúdo digital. 

Essa visão também aparece no livro “Democracia e Redes Sociais: o Desafio de Combater o Populismo Digital Extremista”, publicado pela Atlas em 2025. A obra defende o enfrentamento à desinformação e a responsabilização de plataformas, e chegou à lista de semifinalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Direito. O livro ajudou a consolidar Moraes como uma voz intelectual a favor de maior controle sobre o ambiente digital. 

É justamente aí que mora a tensão ideológica. Para a ala trumpista e para parte do ecossistema conservador americano, a tese de regulação das plataformas pode ser lida como ameaça à liberdade de expressão, sobretudo em um ambiente político em que redes sociais são tratadas como trincheiras centrais da disputa pública. A crítica de Darren Beattie a Moraes se encaixa nesse cenário: não é apenas pessoal, mas também simbólica. 

Por isso, qualquer rumor de volta da Lei Magnitsky precisa ser lido também sob essa chave: não se trata só de Bolsonaro ou de um julgamento específico, mas de uma disputa maior sobre quem controla os limites da fala, da moderação e do poder das plataformas. No conflito entre Moraes e o trumpismo, as Big Techs deixaram de ser coadjuvantes. Viraram o centro do tabuleiro.