Comportamento de autoridades, insegurança econômica e decisões polêmicas colocam em xeque a estabilidade de Donald Trump antes mesmo do retorno ao poder
Um relógio de ouro — de valor estimado em US$ 50 mil — reluzindo no pulso da secretária do Interior dos Estados Unidos, Kristi Noem, enquanto ela visitava uma superpenitenciária em El Salvador, ganhou o noticiário mundial nesta semana. O gesto, aparentemente superficial, ganhou proporções maiores num cenário de desgaste político, ruído econômico e instabilidade institucional no entorno de Donald Trump.
Noem, vista por aliados como nome forte para compor uma eventual chapa presidencial com Trump em 2024, foi fotografada com seu Rolex de luxo em meio a presos da gangue venezuelana Tren de Aragua, enviados por decisão judicial à penitenciária de máxima segurança construída por Nayib Bukele, presidente de El Salvador. A visita, mais midiática do que estratégica, foi envolta em críticas sobre a ostentação simbólica diante de prisioneiros e o uso político da estética “linha dura”.
“Mesmo comprado com recursos próprios, o gesto revela uma dissonância. Há algo de moralmente ruidoso em ostentar o luxo enquanto se debate sobre controle, punição e miséria humana”, comentou um analista da Foreign Affairs.
📉 Economia em suspense e fuga de investidores
Enquanto imagens como a de Noem viralizam e alimentam controvérsias, o mercado financeiro reage com cautela — e com os pés para fora. Uma pesquisa da CNBC, feita com CEOs de grandes empresas, apontou que 95% dos entrevistados enxergam a instabilidade do governo como um obstáculo direto para a tomada de decisões estratégicas.
Segundo o levantamento, há uma percepção crescente de que os EUA caminham para uma recessão no segundo semestre, intensificada pela volatilidade política e falta de clareza sobre políticas tarifárias. O entusiasmo empresarial que marcou os primeiros anos do trumpismo já não se sustenta. Pelo contrário: convertidos se transformaram em céticos.
“Nenhum dos meus amigos que votou em Trump está contente. Todo mundo está aborrecido”, disse Reggie James, CEO da Eternal, ao Business Insider. “Esperavam uma abordagem mais cirúrgica. O que veio foi disrupção em massa.”
📲 Segurança nacional na mira: até o Signal virou risco
A inquietação se estende ao núcleo duro do governo. Investigações recentes apontaram que ministros-chave e o diretor da CIA utilizaram o aplicativo Signal — popular entre usuários comuns, mas vulnerável a ataques de potências estrangeiras — para discutir temas extremamente sensíveis da segurança nacional.
O episódio reforçou críticas à fragilidade operacional e à gestão improvisada dentro do governo Trump, onde o improviso, muitas vezes, sobrepõe-se aos protocolos — inclusive os mais básicos.
👩⚖️ Imigração, tribunais e o efeito Bukele
A política migratória, bandeira histórica do trumpismo, também virou campo minado. A decisão de enviar membros da Tren de Aragua para a penitenciária salvadorenha foi judicialmente congelada, reacendendo o debate sobre limites éticos, legais e diplomáticos das medidas do governo.
A visita de Kristi Noem à prisão — agora congelada em memes e críticas — não foi apenas um ato simbólico. Representou uma tentativa de encarnar a estética punitivista que tanto seduz parte do eleitorado conservador, mesmo ao custo de expor contradições éticas e visuais, como o contraste entre um Rolex suíço e um presídio superlotado da América Central.
🧭 O luxo como dissonância moral
O episódio do relógio não é sobre joias. É sobre imagem, sensibilidade e percepção pública. Em tempos de incerteza, símbolos falam alto — e, às vezes, mais do que discursos.
Se o objetivo era demonstrar firmeza e controle, a visita de Noem terminou deixando exposta a fragilidade simbólica de uma gestão que tenta parecer coesa, mas se fragmenta entre o espetáculo e a realidade.
O tempo corre. E ele cobra.