Em um dos espaços de maior circulação do Distrito Federal, iniciativa busca oferecer refúgio sensorial, acessibilidade e uma experiência mais humana para pessoas com TEA e outras neurodivergências.
Em um lugar marcado pela pressa, pelo ruído e pela circulação incessante de pessoas, a criação de um espaço de calma pode parecer um gesto simples. Mas, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, esse gesto carrega um significado maior. Neste 2 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o terminal se destaca pela implantação de uma sala multissensorial voltada ao acolhimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodivergências.

A iniciativa, implementada pela concessionária responsável pela administração da rodoviária, foi concebida mesmo sem exigência contratual — um detalhe que ajuda a definir o tom do projeto: menos obrigação formal, mais escolha institucional. Localizada no nível das plataformas, ao lado do Centro de Controle Operacional, a sala foi planejada para atender pessoas com hipersensibilidade sensorial, condição comum entre indivíduos autistas e que pode ser agravada em ambientes intensos, imprevisíveis e superestimulantes como uma rodoviária.
A proposta é oferecer um espaço de conforto, tranquilidade e regulação sensorial em meio a um dos pontos mais movimentados do Distrito Federal. Em vez de tratar a acessibilidade apenas como adequação física, a medida amplia o conceito de inclusão para abarcar também as necessidades invisíveis de parte dos usuários do transporte público.
A rodoviária também passou a oferecer vagas de estacionamento exclusivas para pessoas com TEA, medida que busca facilitar o acesso e garantir mais autonomia e comodidade a usuários e acompanhantes. Juntas, as ações sinalizam uma tentativa de tornar o equipamento urbano mais responsivo à diversidade de perfis que o atravessam diariamente.
O contexto ajuda a dimensionar a relevância da iniciativa. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, os primeiros a trazer informações sobre diagnóstico de autismo no país, cerca de 34,1 mil pessoas no Distrito Federal declararam ter recebido diagnóstico de TEA — o equivalente a 1,2% da população local. No ambiente escolar, estudantes com TEA já representam 1,7% das matrículas, indicando uma presença crescente e cada vez mais visível na vida pública.

Em uma cidade que ainda enfrenta desafios para transformar discurso inclusivo em estrutura concreta, a existência de uma sala multissensorial em um terminal central de transporte adquire um peso simbólico e prático. Mais do que uma instalação específica, ela sugere uma mudança de olhar sobre o espaço público: a de que acolher também é planejar.
Ao comentar a iniciativa, o diretor da Catedral, Enrico Capecci, afirmou que a meta é fazer da rodoviária um ambiente “verdadeiramente acessível e acolhedor para todos”, com atenção especial às necessidades de usuários com hipersensibilidade sensorial. Sua fala resume uma ideia que, por muito tempo, ficou à margem das políticas urbanas: a de que inclusão não se resume a permitir entrada, mas a tornar a permanência possível e digna.
Abril, reconhecido internacionalmente como Abril Azul, é dedicado à conscientização sobre o autismo. A data de 2 de abril foi instituída pela ONU em 2007 com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o transtorno, combater estigmas e promover respeito, inclusão e diagnóstico precoce. Mas datas simbólicas, por si, pouco significam sem desdobramentos reais.
É justamente aí que a iniciativa da Rodoviária do Plano Piloto encontra sua força. Em vez de se limitar ao gesto protocolar de adesão a uma campanha, ela materializa no cotidiano uma resposta concreta a uma demanda antiga: a de que os espaços urbanos sejam pensados também para quem vive o mundo de forma sensorialmente distinta.
Num terminal onde quase tudo é movimento, a criação de um lugar de pausa talvez seja, afinal, uma forma profunda de cidadania.