Carisma, estratégia e estrutura familiar transformaram o “sextou, BB” em um ativo milionário — e revelam o lado empresarial por trás do personagem que conquistou o Brasil
Durante muito tempo, o público acreditou estar diante apenas de um personagem espontâneo: um homem de chapéu, sorriso largo, cerveja na mesa e um bordão certeiro para inaugurar o fim de semana. O “sextou, BB” virou ritual nacional, repetido em bares, grupos de WhatsApp e timelines. Mas por trás da figura carismática existia algo bem mais robusto — uma operação profissional de mídia e negócios liderada por Henrique Maderite.
Nada ali era improviso. O que parecia casual era, na prática, um produto cuidadosamente construído. Repetição, identidade visual, cenário fixo e mensagem clara. A sexta-feira não era descanso: era expediente. Cada vídeo, cada brinde, cada sorriso fazia parte de uma engrenagem pensada para gerar engajamento, valor publicitário e retorno financeiro.
O cenário ajudava a sustentar a narrativa. O Haras Henrique Maderite, em área rural de Ouro Preto (MG), funcionava como pano de fundo simbólico: cavalos, paisagem bucólica, mesa farta e cerveja gelada. Um retrato idealizado de conforto, estabilidade e prazer — exatamente o que grande parte do público deseja depois de uma semana exaustiva. Não era apenas publicidade de bebida. Era a venda de um lifestyle.
E lifestyle bem embalado vira dinheiro. O bordão que começou como vídeo orgânico rapidamente se transformou em ativo comercial. Primeiro vieram marcas locais, depois grandes empresas. Cervejarias, bancos e outros setores passaram a disputar espaço naquela sexta-feira previsível, alegre e confiável. O segredo não estava no alcance inflado, mas no engajamento fiel de um público adulto, entre 25 e 57 anos, com poder de consumo.

A engrenagem, porém, não funcionava sozinha. O chamado “Império Maderite” era também um negócio familiar. A esposa, Fernanda Maciel, atuava diretamente como sócia, participando das decisões estratégicas, parcerias e posicionamento. A filha, Ana Clara, integrava a operação, ajudando a transformar vídeos de churrasco em campanhas com briefing, meta e entrega. Além disso, havia equipe estruturada: captação, edição, negociação comercial e gestão de marcas — muito mais próximo de uma produtora do que de um influenciador amador.
O poder de mobilização ficou evidente fora da publicidade. Em janeiro de 2022, durante as enchentes que devastaram Minas Gerais, Henrique acionou sua audiência para uma campanha solidária. Em um único fim de semana, foram arrecadados R$ 2,6 milhões. Houve site, atualização em tempo real, prestação de contas e atendimento a mais de 40 municípios. A mesma eficiência usada para vender marcas foi aplicada para mobilizar doações.
O próprio Henrique costumava brincar que, quando ia ao bar na sexta-feira, estava indo trabalhar. A piada escondia uma verdade simples: o brinde era filmado, a legenda era pensada, o horário era estratégico. Tudo sob controle. O “sextou, BB” não era apenas humor — era indústria.
A morte de Henrique Maderite, encontrado sem vida aos 50 anos em seu haras, o mesmo cenário que ajudou a construir sua imagem pública, interrompeu abruptamente essa narrativa. A comoção nacional não veio apenas do carisma, mas da sensação de que um personagem permanente da sexta-feira brasileira foi silenciado de repente.
O copo baixou, a câmera desligou, mas a estrutura permanece. O Império Maderite não termina com a ausência de seu rosto mais conhecido. Ele se transforma em legado. O “sextou, BB” deixa de ser apenas uma brincadeira de bar e passa a ser analisado como sempre foi: uma máquina de influência, construída com estratégia, família, visão de negócio — e que só ficou totalmente visível quando parou.