Italian Design Day em Brasília transforma patrimônio em ponto de partida para discutir o futuro

Evento na Embaixada da Itália reuniu arquitetos, pesquisadores e representantes da cultura para uma conversa sobre restauração, inovação e sustentabilidade — menos sobre construir do zero, mais sobre reaprender a olhar para o que já existe.

Em uma cidade como Brasília, onde a arquitetura costuma ser lida como manifesto, discutir patrimônio nunca é apenas um exercício de memória. É também uma forma de pensar o futuro. Foi nesse espírito que a Embaixada da Itália no Brasil realizou, na tarde de terça-feira, 31 de março, mais uma edição do Italian Design Day 2026, reunindo na capital federal especialistas e convidados dos campos da arquitetura, do design, da arte e da cultura.

Promovida anualmente pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália, em conjunto com sua rede diplomática, a iniciativa tem como eixo a difusão da tradição italiana em arquitetura e design no cenário internacional. Em sua décima edição, o encontro deste ano foi organizado em torno de um tema que parece responder a uma inquietação contemporânea cada vez mais urgente: como regenerar espaços e preservar legados sem abrir mão de inovação e sustentabilidade.

Realizado na Sala Nervi, na sede da embaixada, o debate teve como foco o tema “RE-DESIGN: materiais, inovação e sustentabilidade do patrimônio arquitetônico italiano”. Mais do que uma formulação técnica, a proposta apontava para uma mudança de sensibilidade: pensar o patrimônio não como peça intocável, mas como matéria viva, sujeita a adaptações, leituras renovadas e novos usos.

Créditos: Ketlen Bac

O encontro foi organizado em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU-UnB) e integrou a programação global do Italian Design Day, que, neste ano, propõe uma reflexão mais ampla sobre o papel da arquitetura e do design na qualidade dos ambientes contemporâneos. Em vez da obsessão pelo novo, a edição pareceu sugerir outra via — a da continuidade inteligente.

Participaram do debate a professora Luciana Saboia, da FAU-UnB, pesquisadora nas áreas de paisagem urbana e teoria do projeto, além de curadora do pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2025, e o arquiteto Carlo Nozza, da Università della Svizzera Italiana, conhecido por sua atuação em preservação do patrimônio moderno e arquitetura sustentável. Juntos, abordaram questões que hoje atravessam boa parte do debate arquitetônico internacional: requalificação urbana, valorização do patrimônio construído e o delicado equilíbrio entre tradição e tecnologia.

Créditos: Ketlen Bac

A escolha do tema não foi casual. A própria sede diplomática italiana em Brasília, que recebeu o evento, atravessa um momento simbólico: concluiu recentemente obras de renovação e restauração de seu patrimônio arquitetônico e artístico. O edifício, assim, não serviu apenas de cenário para a discussão — tornou-se parte dela.

Ao abrir o encontro, o embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, ressaltou a importância da preservação arquitetônica como elo entre passado e presente. Para ele, a arquitetura, o design e a restauração italiana carregam uma tradição que se construiu ao longo do tempo não pela rigidez, mas pela capacidade de transformação. Em sua leitura, cidades e edifícios são resultado de sucessivas camadas de história, marcadas por adaptações e novas ideias.

Sua fala tocou no centro da proposta desta edição. “Não necessariamente construir algo novo, mas saber olhar para o que já temos com novos olhos”, afirmou o embaixador, ao defender uma abordagem que valorize a atualização do existente sem perder de vista sua herança cultural.

Há algo de particularmente eloquente nessa mensagem em Brasília, cidade tombada, planejada e constantemente tensionada entre preservação e uso. Ao trazer para a capital brasileira uma discussão sobre patrimônio italiano, o Italian Design Day acabou também sugerindo uma conversa mais ampla, quase silenciosa, sobre o que fazer com os legados modernos em um tempo que exige responsabilidade ambiental, inteligência material e menos desperdício.

No fim, o encontro na embaixada tratou menos de nostalgia do que de permanência. E lembrou, com a sobriedade dos bons debates, que preservar não é interromper o tempo, mas permitir que ele continue a agir sem destruir o que merece permanecer.