Com cinco palcos simultâneos e especialistas de 25 entidades, evento em São Paulo quer transformar conhecimento técnico em eixo central de uma indústria pressionada por inovação, eficiência e segurança assistencial
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Em um setor cada vez mais atravessado por tecnologia, pressão por eficiência e demandas crescentes por cuidado mais integrado, a Hospitalar 2026 quer se afirmar não apenas como vitrine de negócios, mas como espaço de formulação. Na edição deste ano, marcada para acontecer de 19 a 22 de maio, no São Paulo Expo, o evento dedicará parte central de sua programação a cinco arenas temáticas voltadas a temas como inteligência artificial, gestão, reabilitação, sustentabilidade hospitalar e regulação.
A proposta é reunir, na chamada Plaza Hospitalar, cerca de 25 especialistas ligados a entidades setoriais para uma série de apresentações simultâneas, em formato de painéis e compartilhamento de casos práticos. Em vez de apenas expor equipamentos, marcas e soluções, a feira tenta dar relevo a uma discussão mais ampla: como o sistema de saúde brasileiro pretende operar em um ambiente moldado por dados, digitalização e novas exigências de qualidade.
“As arenas são espaços dedicados às trocas de conhecimento”, afirmou Juliana Vicente, head do portfólio de saúde da Informa Markets, empresa organizadora da Hospitalar. Segundo ela, a intenção é criar um ambiente em que profissionais possam dividir experiências capazes de influenciar decisões técnicas, tecnológicas e de gestão nos próximos anos.
A programação anunciada sugere um retrato bastante fiel das preocupações que hoje dominam o setor. A ABIMO, associação da indústria de dispositivos médicos, levará o painel “Regulamentação em Foco”, voltado a estratégias de inovação e eficiência no mercado brasileiro. Já o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) abordará um tema sensível para operadoras, prestadores e pacientes: como combinar previsibilidade, inovação e sustentabilidade em um sistema de saúde suplementar sob tensão permanente.
Em outra frente, a ABDEH, entidade voltada ao desenvolvimento do edifício hospitalar, discutirá a relação entre sustentabilidade, eficiência operacional, tecnologia e experiência do usuário — um conjunto de palavras que, há alguns anos, talvez pertencesse a universos distintos, mas que hoje descreve a ambição de muitos hospitais contemporâneos: serem ao mesmo tempo mais funcionais, mais inteligentes e menos hostis ao paciente.
O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP apresentará o modelo do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), com foco na transição para hospitais conectados e no manejo de crises em ambientes digitais. A presença do tema indica como a transformação digital na saúde já não é tratada como promessa distante, mas como infraestrutura em construção — e, ao mesmo tempo, como fonte de novos riscos e vulnerabilidades.
Na ponta do atendimento, a Associação Brasileira de Fisioterapia Neurofuncional (ABRAFIN) voltará a atenção à jornada de reabilitação do paciente, do estímulo inicial no ambiente hospitalar ao retorno funcional. Já o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) promoverá o 4º Congresso de Acreditação e Qualidade, refletindo uma preocupação crescente com padronização, segurança e validação de processos em uma área crítica da assistência.
O SINDHOSP, por sua vez, levará à discussão um tema que se tornou quase inevitável na administração em saúde: o papel da inteligência de dados na tomada de decisão. O painel, intitulado “Saúde no Brasil em transformação: inteligência para decidir o futuro”, parece resumir bem o espírito do evento: o de um setor que busca transformar volume de informação em capacidade real de gestão.
Fora da Plaza Hospitalar, a ABIMED terá programação própria no mezanino, com acesso mediante credencial específica. O destaque será a Jornada Regulatória ABIMED, fórum voltado ao alinhamento de processos junto a órgãos governamentais e à análise dos efeitos das normas vigentes sobre as empresas e a segurança dos pacientes. A separação da agenda sugere o peso crescente da regulação em um setor onde inovação, mercado e responsabilidade sanitária avançam lado a lado — nem sempre em ritmo harmonioso.
A Hospitalar chega à sua 31ª edição com números que ajudam a explicar sua relevância regional. Segundo os organizadores, o evento reunirá 1.272 marcas expositoras em uma área de 100 mil metros quadrados e receberá delegações de mais de 55 países, com participação inédita de Sri Lanka e Filipinas. Os dados reforçam sua posição como principal plataforma de negócios e networking em saúde da América Latina.
Mas o que talvez diferencie esta edição não sejam apenas suas dimensões, e sim o esforço para colocar conteúdo e reflexão no centro da experiência. Em um mercado acostumado a celebrar lançamentos, a Hospitalar parece reconhecer que a próxima grande disputa da saúde não será apenas tecnológica. Será também organizacional, regulatória e humana.
No fim, as arenas da Hospitalar 2026 apontam para uma questão maior que atravessa todo o setor: como incorporar inovação sem perder de vista aquilo que, em saúde, continua sendo irredutível — a segurança do paciente, a qualidade do cuidado e a capacidade de gerir complexidade sem transformar o hospital em máquina opaca.