Em relato contundente, o artista detalha como recusou intermediação de político que exigia porcentagem de verba captada; “Nunca precisei de dinheiro de governo”, afirmou o cantor.
Rio de Janeiro — Uma entrevista recente do cantor Ney Matogrosso viralizou ao trazer à tona os bastidores obscuros da captação de recursos culturais no Brasil. Com a integridade que marca seus mais de 50 anos de carreira, o artista revelou ter sido alvo de uma tentativa de extorsão ao tentar utilizar a Lei Rouanet para um de seus projetos no Rio de Janeiro.
O episódio, narrado pelo cantor com indignação e clareza, expõe como o trânsito político pode se transformar em um balcão de negócios ilícitos, utilizando mecanismos que deveriam fomentar a arte nacional.
O “Negócio” Proposto
De acordo com Ney, o encontro ocorreu com um intermediário que ocupava o cargo de secretário de Minas e Energia do Rio de Janeiro na época e que era filho de um ministro de Estado.
- A Proposta: O político garantiu que viabilizaria a captação de R$ 200 mil através da Lei Rouanet.
- A Condição: Em troca da facilitação, o intermediário exigiu uma “comissão” de “20 e poucos por cento” do valor total.
- A Reação: Assim que compreendeu que se tratava de um pedido de propina, Ney Matogrosso encerrou a conversa imediatamente. “Disse ‘muito obrigado’ e fui embora”, relembrou.
“Zelo Pelo Meu Nome”
A recusa de Ney não foi apenas uma decisão administrativa, mas um ato de preservação de sua biografia. O cantor reforçou que sua trajetória sempre foi pautada pela autossuficiência e pelo distanciamento de favores governamentais.
“Eu zelo muito pela minha integridade, meu nome. Não quero mesmo esse tipo de coisa, eu nunca precisei de dinheiro de governo nenhum para fazer meu trabalho”, declarou o artista.
A fala de Ney toca em uma ferida aberta sobre a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/91). Embora o mecanismo seja vital para a manutenção de museus, teatros e grandes produções, o relato ilustra como a necessidade de aprovação e captação pode abrir brechas para que agentes políticos tentem desviar recursos públicos antes mesmo que eles cheguem ao palco.
Independência Artística
O depoimento de Ney Matogrosso serve como um lembrete da importância da independência financeira para a liberdade de expressão. Ao longo de décadas, o artista construiu um modelo de trabalho que lhe permite falar abertamente sobre as engrenagens do poder sem receio de represálias.
Para especialistas em gestão cultural, o caso reforça a necessidade de maior transparência e compliance nos processos de captação, reduzindo o papel de intermediários políticos e focando no mérito técnico e artístico dos projetos.