O Distrito Federal ocupa uma posição de alerta no cenário nacional da inadimplência. De acordo com dados do Serasa referentes a dezembro de 2025, 61,84% da população adulta do DF está inadimplente, índice que coloca a unidade federativa na segunda colocação do ranking nacional, ficando atrás apenas do Amapá. O percentual está bem acima da média brasileira, que é de 49,77% da população.
No panorama nacional, o Brasil soma 81,2 milhões de inadimplentes, com crescimento mensal de 0,79%. O valor médio das dívidas por pessoa chega a R$ 6.382, enquanto cada débito possui valor médio de R$ 1.593,27. O estoque total das dívidas no país já alcança R$ 518 bilhões, evidenciando o impacto do uso recorrente de crédito de alto custo e da falta de planejamento financeiro sobre o orçamento das famílias.
Para a presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira no Distrito Federal (ABEFIN-DF), Andréa Saraiva, o cenário exige atenção imediata e ações estruturadas voltadas à reorganização financeira da população.
“Os dados de inadimplência do Distrito Federal evidenciam a necessidade de ações estruturadas voltadas à educação financeira e ao uso consciente do crédito. A falta de planejamento financeiro compromete o orçamento das famílias e limita o potencial de crescimento econômico. A educação financeira se consolida como uma política estratégica de prevenção, inclusão financeira e desenvolvimento sustentável”, explica Saraiva
O elevado índice de inadimplência no Distrito Federal está diretamente relacionado ao uso frequente de linhas de crédito com juros elevados, como cartão de crédito, cheque especial e parcelamentos extensos, muitas vezes contratados sem uma análise detalhada da capacidade de pagamento. Esse comportamento compromete grande parte da renda mensal com juros, dificultando a redução efetiva das dívidas e prolongando o ciclo de endividamento.
Segundo Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e presidente nacional da ABEFIN, sair da inadimplência é possível quando o consumidor adota método, disciplina e consciência financeira. “A inadimplência não surge de forma repentina, ela é construída ao longo do tempo por decisões financeiras tomadas sem planejamento. Para reverter esse cenário, é fundamental conhecer profundamente a própria realidade financeira, organizar todas as dívidas, compreender os juros envolvidos e priorizar aquelas que mais impactam o orçamento. Quando a pessoa passa a pagar o valor principal das dívidas, e não apenas os juros, inicia um processo real de recuperação financeira”, afirma.
Caminhos para sair da inadimplência
O processo de reorganização financeira começa com o levantamento detalhado de todas as dívidas, considerando valores, prazos e taxas de juros. Compromissos ligados a serviços essenciais, como moradia, energia elétrica e água, devem ser preservados, enquanto dívidas com juros mais elevados precisam ser tratadas como prioridade.
Outro passo fundamental é o controle rigoroso dos gastos. Registrar todas as despesas por um período mínimo de 30 dias, incluindo pequenos gastos do cotidiano, permite identificar excessos, rever hábitos de consumo e criar espaço no orçamento para a regularização das pendências financeiras.
A negociação com credores deve ser realizada somente após esse diagnóstico financeiro. Ter clareza sobre quanto é possível pagar mensalmente evita novos atrasos e acordos que não se sustentam ao longo do tempo. Em alguns casos, a reorganização das dívidas em uma única linha de crédito, com juros menores e prazos mais longos, pode reduzir a pressão financeira e permitir a quitação gradual dos débitos.
Quando não há possibilidade imediata de negociação, a formação de uma reserva financeira pode fortalecer o poder de negociação futura, especialmente junto a empresas de recuperação de crédito. Além disso, refletir sobre decisões de consumo e alinhar os gastos aos objetivos de vida contribui para evitar novos ciclos de endividamento.
Diante de um cenário em que o Distrito Federal figura entre as unidades da Federação com maior índice de inadimplência, ficando atrás apenas do Amapá, a educação financeira se consolida como uma ferramenta estratégica para apoiar as famílias, estimular escolhas mais conscientes e promover uma relação mais equilibrada e sustentável com o dinheiro.