Em “Sexo, Amor e Hipérboles”, influenciadora e professora de português troca a gramática pelo desconforto calculado de histórias sobre hipocrisia, poder e contradições íntimas
Há autores que constroem a carreira explicando como falar. Outros preferem investigar aquilo que quase ninguém admite dizer. Em seu primeiro livro de ficção, “Sexo, Amor e Hipérboles”, Cíntia Chagas parece interessada justamente nesse segundo território: o das aparências sociais que desmoronam quando a porta se fecha, o do desejo que desafia o verniz da respeitabilidade e o das pequenas e grandes incoerências que sustentam a vida privada.
Conhecida nacionalmente por seu trabalho como professora de português, palestrante e influenciadora digital, Cíntia chega à ficção com uma coleção de 30 contos que, segundo a proposta do livro, orbitam em torno de temas como desejo, traição, culpa, poder e conveniência moral. O volume, que tem prefácio de Sonia Rodrigues, filha de Nelson Rodrigues, assume desde o início a ambição de provocar. Não apenas pelo assunto, mas pela recusa em tratar a intimidade como lugar de pureza ou sentimentalismo.
A filiação, aliás, não parece casual. Há algo de deliberadamente rodrigueano no impulso de levar o leitor aos bastidores de famílias, casais e figuras públicas supostamente exemplares para, ali, revelar fissuras menos nobres: vícios, impulsos, ressentimentos, pactos silenciosos e afetos atravessados por interesse. O que o livro propõe não é exatamente uma celebração do escândalo, mas a exposição de uma verdade social bastante antiga: a de que a moral pública, com frequência, convive confortavelmente com o avesso privado.
Nos contos, segundo o material de divulgação, surgem personagens como promotores de justiça envolvidos com prostitutas, beatas digitais longe da virtude que performam e casais unidos por segredos inconfessáveis. O repertório sugere uma autora menos interessada em inocentar ou condenar do que em desmontar o teatro da respeitabilidade. O resultado, ao menos na proposta do livro, é o retrato de uma sociedade em que a fidelidade talvez seja menos uma convicção do que uma circunstância, e onde o desejo frequentemente revela aquilo que a linguagem social tenta ocultar.
Mas a provocação de Cíntia não parece residir apenas nos temas. Ela surge também no tom. Sonia Rodrigues observa, no prefácio, que a autora atravessa assuntos espinhosos — entre eles tesão feminino, aborto, atração por pessoas inadequadas e violência — sem perder o humor em boa parte das histórias. Essa combinação talvez seja o traço mais distintivo do projeto: tratar o desconforto sem solenidade, permitir que o grotesco se aproxime da ironia e que o leitor oscile entre o riso, o incômodo e o reconhecimento.
É um movimento particularmente interessante no caso de Cíntia Chagas porque sua imagem pública foi construída, em grande medida, no campo da forma: a elegância da fala, a defesa da norma culta, o comentário afiado sobre comportamento e linguagem. Em “Sexo, Amor e Hipérboles”, ela parece deslocar esse rigor para outro tipo de observação: a da gramática secreta dos relacionamentos, feita menos de regras do que de contradições. A escritora que emerge aqui é menos professora do que cronista daquilo que a educação sentimental não consegue disciplinar.
A autora, formada em Letras pela UFMG, transformou aulas de português em marca pessoal e construiu, nas redes sociais, uma persona que combina erudição pop, humor ácido e apelo de performance. Com milhões de seguidores, tornou-se uma figura rara no ecossistema digital brasileiro: alguém capaz de fazer da língua um produto de massa sem esvaziá-la por completo. Agora, ao migrar para a ficção, ela parece testar se o mesmo carisma pode sobreviver fora do comentário rápido e do vídeo curto, num espaço em que a linguagem exige atmosfera, ambiguidade e permanência.
O lançamento do livro coincide, ainda, com um momento de expansão de sua presença pública. Em abril de 2026, Cíntia também estreia um quadro com dicas de português no Domingo Espetacular, ampliando sua circulação para a televisão aberta. Essa simultaneidade entre mídia de massa e estreia literária ajuda a definir o lugar que ela ocupa hoje: o de uma comunicadora que transita entre mercado editorial, influência digital e entretenimento televisivo, agora tentando se afirmar também como autora de imaginação ficcional.
Em vez de negar essa condição híbrida, “Sexo, Amor e Hipérboles” parece incorporá-la. O livro se apresenta como objeto literário, mas também como gesto de marca: uma obra que aposta na assinatura reconhecível da autora — o deboche, a observação incisiva, a recusa em parecer pudica — para entrar no mercado com identidade própria. Até as ilustrações de Egon Schiele, artista austríaco cuja obra é associada a uma representação inquieta e pouco idealizada do corpo e da sexualidade, reforçam essa atmosfera de inquietação estética e moral.
Ainda assim, o livro parece mirar algo mais profundo do que a simples provocação. Na declaração que acompanha o lançamento, Cíntia define suas histórias como narrativas sobre o “profano”, o “contraditório” e o “indizível” que habitariam todos nós. A frase, embora promocional, toca num ponto central da tradição literária à qual a obra parece querer se vincular: a de que a ficção serve menos para ensinar virtudes do que para revelar zonas de sombra que a vida social prefere maquiar.
Num tempo em que a exposição pessoal se tornou rotina e a sinceridade frequentemente assume a forma de performance, há certa ironia no fato de que uma influenciadora recorra justamente à ficção para falar de verdade. Talvez porque a literatura ainda preserve uma liberdade que a vida pública raramente tolera: a de mostrar pessoas não como gostariam de ser vistas, mas como são quando já não precisam posar.
Em “Sexo, Amor e Hipérboles”, Cíntia Chagas parece apostar exatamente nisso. Não no escândalo pelo escândalo, mas na velha e inesgotável força narrativa das contradições humanas — sobretudo aquelas que se escondem melhor sob roupas bem passadas, boa dicção e reputações impecáveis.

Serviço:
Sexo, Amor e Hipérboles
14 x 21 cm • 208 páginas
Brochura • Marca página
ISBN: 978-65-5348-032-2
R$59,90