Ataque hacker com alerta falso expõe fragilidade e ameaça credibilidade da Defesa Civil

Por O Brasiliense 

Um provável ataque cibernético contra o sistema nacional de alertas de emergência disparou uma onda de pânico e questionamentos em vários estados do país entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada deste sábado (20). Celulares de milhões de brasileiros emitiram alarmes sonoros estridentes acompanhados de mensagens de texto sem sentido contendo termos como “misantropia” (aversão à humanidade).

O incidente acendeu o sinal de alerta máximo no governo federal e entre especialistas em gerenciamento de crises. A principal preocupação técnica não reside apenas na brecha de segurança digital, mas no chamado “efeito do lobo mau”: o risco real de que a população passe a ignorar avisos legítimos no futuro, aumentando a vulnerabilidade social diante de desastres reais.

“É lógico que isso não é bom para a confiabilidade [do sistema]. Pelo contrário, é muito ruim. O caso é muito ruim para o sistema, ainda mais pensando que a gente trata com a segurança das pessoas, com vidas”, admitiu na manhã de hoje o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff.

Invasão na Tecnologia ‘Cell Broadcast’

O ataque driblou os protocolos de segurança do recém-implementado sistema Defesa Civil Alerta. Diferente do tradicional SMS, essa ferramenta utiliza a tecnologia Cell Broadcast (transmissão via rádio pelas antenas de telefonia 4G e 5G).

A plataforma foi imediatamente retirada do ar à 1h30 deste sábado e não tem previsão de retorno. Segundo a Defesa Civil Nacional, o sistema só voltará a operar quando houver auditoria completa e troca de credenciais. A Polícia Federal (PF) foi acionada para investigar se a invasão decorreu de vazamento de senhas internas ou exploração de vulnerabilidade externa.

Alarme Falso às Vésperas do El Niño Preocupa Especialistas

O momento do ataque cibernético é considerado crítico por cientistas climáticos. O coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres no Estado de São Paulo (Ceped) da USP, Eduardo Mario Mendiondo, destacou que o país está em fase de preparação para a chegada do fenômeno meteorológico El Niño, que costuma desregular os índices pluviométricos e causar eventos extremos de seca e chuva.

“Ainda não estamos em uma época de estação chuvosa, mas imagine se isso ocorrer em uma época em que as pessoas se preparam em função dos alertas da Defesa Civil? Estamos falando de milhões de pessoas afetadas. Isso ocorrer na véspera da formação de um El Niño gera muita preocupação de como evitar os alertas falsos”, alertou Mendiondo.

O especialista em direito digital e perito em cibersegurança, José Milagre, reforçou o perigo do ceticismo público. “Se as pessoas passarem a desconfiar dos avisos, podem ignorar comunicações legítimas em situações reais de enchentes, tempestades ou outros desastres, o que aumenta significativamente o risco à segurança da população”, concluiu.

Até o momento, o governo federal estima que os invasores conseguiram emitir dez tipos de alertas falsos diferentes, afetando moradores de capitais como Curitiba, São Paulo, Aracaju e o Distrito Federal.