Após críticas dos EUA ao Pix, Petro pede a Lula que leve sistema à Colômbia

Presidente colombiano reage ao avanço da disputa comercial entre Washington e Brasília e tenta transformar o sistema de pagamentos brasileiro em símbolo de integração regional.O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, pediu publicamente a Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil estenda o Pixao território colombiano, numa intervenção que mistura política regional, disputa comercial e crítica direta à influência dos Estados Unidos sobre a arquitetura financeira do continente. Em mensagem publicada no fim de semana, Petro defendeu que o Brasil “estenda o sistema Pix à Colômbia” e voltou a atacar a lista de sanções da OFAC, órgão do Tesouro americano, dizendo que ela já não serve ao combate ao narcotráfico e funciona como instrumento de controle político. O pedido não surgiu no vazio. Ele veio na esteira da pressão crescente de Washington sobre o sistema de pagamentos brasileiro. No relatório anual de barreiras comerciais publicado pelo USTR, o escritório de representação comercial dos Estados Unidos afirmou que o Banco Central do Brasil “criou, detém, opera e regula” o Pix e registrou preocupações de partes interessadas americanas de que o sistema receba tratamento preferencial, em prejuízo de fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. O tema também integra a investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301da lei comercial americana, iniciada em julho de 2025. Ao reagir, Petro procurou dar ao episódio um sentido mais amplo do que o de uma simples controvérsia técnica sobre meios de pagamento. Seu gesto foi político: sugeriu que o Pix poderia servir não apenas como ferramenta brasileira de inclusão financeira, mas como infraestrutura regional, capaz de reduzir dependência de mecanismos sob influência direta dos Estados Unidos. Em sua postagem, o presidente colombiano associou a discussão a uma crítica mais ampla ao regime internacional de sanções e àquilo que chamou de uma governança global pouco democrática. O contraste entre as posições também ajuda a explicar por que o caso ganhou repercussão. Para o governo americano, o problema é concorrencial: o USTR sustenta que o desenho institucional do Pix pode criar uma vantagem indevida para um sistema operado pelo Estado brasileiro. Para o governo brasileiro, a acusação é improcedente. Em resposta formal enviada ao USTR em agosto de 2025, o Itamaraty afirmou que as alegações dos EUA são infundadas, que as políticas investigadas são transparentes e não discriminatórias, e reiterou que o Brasil não reconhece a legitimidade da Seção 301 como instrumento compatível com as regras multilaterais da OMCA fala de Petro também encontra eco, ao menos em tese, em um discurso recente de Lula. Em janeiro deste ano, na abertura do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026, o presidente brasileiro afirmou que sistemas de pagamentos digitais e inovadores “como o Pix” podem impulsionar o comércio regional. A declaração não equivalia a um anúncio de expansão do sistema para outros países, mas indicava que o governo brasileiro já vinha tratando o Pix como parte de uma agenda mais ampla de integração latino-americana. Ainda assim, entre o desejo político e a implementação real existe uma distância considerável. O Pix é uma infraestrutura regulada pelo Banco Central do Brasil, e qualquer extensão operacional para outro país exigiria desenho jurídico, regulatório e tecnológico próprio, além de coordenação entre bancos centrais, instituições financeiras e governos. Até aqui, o que existe de concreto é o gesto de Petro: uma tentativa de transformar uma disputa comercial envolvendo o Brasil em argumento a favor de uma integração financeira sul-americana menos dependente de Washington. Há uma ironia de fundo no episódio. O que começou, para os Estados Unidos, como crítica a um instrumento brasileiro de pagamentos acabou oferecendo ao Pix um novo tipo de visibilidade: a de ativo geopolítico. Ao pedir sua adoção na Colômbia, Petro não apenas saiu em defesa do sistema. Sugeriu que, no cenário atual, a soberania digital da região talvez passe também por algo aparentemente banal — a forma como seus cidadãos pagam, transferem e circulam dinheiro.