Laudo técnico revela que diretoria do BRB comprou carteiras sem lastro em até quatro minutos, ignorou alertas diários de liquidez e contornou a fiscalização do Conselho de Administração.
Por O Brasiliense
Um laudo pericial produzido pela Polícia Federal (PF) no âmbito dos desdobramentos da Operação Compliance Zerodetalha o modus operandi estruturado dentro do Banco de Brasília (BRB) para validar compras de carteiras de crédito fraudulentas junto ao Banco Master. Ao todo, os peritos analisaram 181 operações que movimentaram R$ 47,8 bilhões em cessões, recompras e substituições. Desse montante, a PF delimitou a caracterização de gestão fraudulenta em 25 aprovações de compras de varejo, somando R$ 17,5 bilhões.
De acordo com o documento, R$ 12,2 bilhões referem-se a Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) cedidas por empresas intermediárias, como a Tirreno. Auditorias do Banco Central (BC) e da PF concluíram que nenhum crédito pôde ser verificado por absoluta ausência de documentação e lastro financeiro real.
As Principais Irregularidades Apontadas no Laudo
A perícia da PF catalogou um conjunto de manobras decisórias e operacionais adotadas pela cúpula do banco estatal do Distrito Federal:
- Pagamentos Sem Análise Prévia: Em 22 aquisições que somaram R$ 7,63 bilhões, a liquidação financeira ocorreu antes da emissão dos pareceres obrigatórios das áreas de Risco, Contabilidade, Planejamento e Controladoria. Em um dos casos, a aprovação foi concluída em apenas quatro minutos.
- Burlar o Conselho de Administração (Consad): A norma interna exige aval do Consad para compras acima de R$ 750 milhões. Para manter as operações restritas à Diretoria Colegiada (Dicol), 21 das 25 aprovações fraudulentas foram fixadas exatamente no teto de R$ 750 milhões.
- Exposição Crítica de Risco: Em junho de 2025, a exposição do BRB ao Banco Master atingiu o pico de 90,31% de sua carteira (R$ 19,78 bilhões) — valor 9,32 vezes superior à soma de todos os demais cedentes do banco juntos. Para ocultar a concentração, as propostas eram submetidas com redações genéricas, omitindo o nome do Master.
- Alertas de Liquidez Ignorados: A PF analisou 66 boletins diários e identificou 51 avisos de risco e 13 extrapolações formais do Índice de Liquidez de Curto Prazo (ILCP). Mesmo ciente dos alertas desde março de 2025, a diretoria aprovou 11 novos limites e autorizou 42 pagamentos à instituição parceira.
- Documentação Fictícia: Foram identificadas planilhas preenchidas com dados inventados e instrumentos de cessão de crédito com firmas reconhecidas em cartório meses após as datas oficiais declaradas.
Aprovações Unânimes na Diretoria Colegiada
A análise das atas revelou que todas as deliberações favoráveis aos papéis do Master na Diretoria Colegiada ocorreram por unanimidade, sem qualquer voto contrário ou ressalva registrada. A PF qualificou a atuação de sete executivos da cúpula, atribuindo papel de liderança direta no esquema a dois diretores:
- Dario Oswaldo Garcia Júnior (Diretor de Finanças e Controladoria – Dific): Recebia relatórios formais sobre a falta de lastro, mas não pautava os alertas na Dicol antes de propor novas compras bilionárias, autorizando liquidações por e-mail sem parecer prévio.
- Luana de Andrade Ribeiro (Diretora de Controle e Riscos – Dicor): Assinava os Reportes Oficiais de Desenquadramento de Liquidez e, em seguida, votava favoravelmente a novas aquisições, liberando waivers(flexibilizações) que contornavam as orientações de sua própria equipe técnica.
Também votaram a favor de todas as operações o presidente do BRB, Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, e os diretores Cristiane Maria Lima Bukowitz (Dipes), Diogo Ilário de Araújo Oliveira (Diago) e José Maria Correa Dias Junior (Ditec).
O laudo destacou que o então diretor jurídico, Jacques Maurício Ferreira Veloso de Melo, esteve ausente ou participou das reuniões como convidado sem direito a voto, não sendo vinculado às aprovações das carteiras.