Vila Amaury: por dentro da “Atlântida Perdida” do Lago Paranoá

A Vila Amaury não era apenas um local de passagem; era uma comunidade vibrante

Por baixo das tranquilas águas do Lago Paranoá reside uma narrativa que o desenvolvimento urbano de Brasília não conseguiu apagar. A Vila Amaury, que no auge de sua construção chegou a abrigar cerca de 16 mil pessoas, transformou-se em uma espécie de “cidade fantasma” submersa, repleta de casas, carros, documentos e pertences que agora repousam sob as águas. Inundada em 1959 para viabilizar a formação do lago, a área se tornou um sítio arqueológico submerso, onde até hoje mergulhadores encontram vestígios da vida dos operários que ajudaram a erguer a nova Capital Federal.

O êxodo e a resistência dos moradores

Com sua história já contada na revista GPS|Brasília, a Vila Amaury não era apenas um local de passagem; era uma comunidade vibrante, com comércio, escolas e igrejas. Contudo, sua localização em um vale a tornava vulnerável à inundação. Com a conclusão da barragem do Lago Paranoá em 1959 e o fechamento das comportas, os moradores enfrentaram a dura realidade da evacuação.

A Novacap, responsável pela obra, teve que pressionar os moradores a deixarem suas casas antes que as águas subissem ainda mais. Maria Fernanda Derntl, professora do Departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da UnB, explica que o local era considerado temporário e estava destinado a desaparecer. “Esse lugar foi pensado para ser provisório, pois sabia-se que seria inundado”, destacou.

A situação urgente fez com que muitas famílias deixassem seus lares apressadamente, fato que se reflete nos objetos deixados para trás, como utensílios domésticos e até carcaças de ônibus, que são testemunhos da vida anterior na vila. Esse drama histórico é bem documentado em arquivos públicos e ainda é revisitado por mergulhadores na atualidade.

Amaury e sua esposa no baile de debutantes no Brasília Palace em 1958

Explorando a “Atlântida de Brasília”

Atualmente, mergulhadores como Beto Barata se aventuram nas águas do Lago Paranoá em busca dos vestígios da Vila Amaury. Ele relata como o local ainda respira história e vida. “Já apareceram muitos objetos submersos, como garrafas e sapatos, que ficaram para trás quando as famílias fugiram”, observa Beto. Ele também menciona o desafio de mergulhar em um local com visibilidade baixa, o que faz do mergulho uma experiência tecnicamente exigente. “Muitos dizem que o Lago Paranoá é um dos piores lugares do Brasil para mergulhar devido à visibilidade, mas, paradoxalmente, isso nos tornou mergulhadores mais habilidosos”, explica.

Desafios e conquistas nas profundezas

O mergulho nas águas do Lago Paranoá não é apenas uma busca por objetos; é uma experiência que liga passado e presente. O ponto mais profundo da barragem chega a impressionantes 40 metros. Nesses mergulhos, exploradores encontraram estruturas submersas, como um píer que, segundo Beto, estava a uma profundidade de 35 a 37 metros. “Encontrar o píer foi uma grande aventura, um verdadeiro tesouro perdido nas profundezas”, relata.

Um legado duradouro

A realocação da população da Vila Amaury para cidades administrativas vizinhas ajudou a manter viva a memória e o legado social daqueles que viram suas casas sumirem sob as águas. O Lago Paranoá, além de sua importância histórica, hoje se tornou um ponto turístico, onde a icônica Ponte JK é considerada uma das mais belas do mundo.

Juscelino Kubitschek, o presidente responsável pela criação do lago, enfatizava a importância dessa obra para Brasília. Ele acreditava que a inauguração da cidade não poderia acontecer sem o lago, que deveria ser a moldura líquida da nova capital. Após a conclusão do projeto, Juscelino ironizou críticos que duvidavam que o lago fosse encher, reafirmando seu compromisso com o desenvolvimento da região.