Brasiliense tem sotaque, sim — e a UnB quer entender como ele soa

Pesquisa ainda em andamento já encontrou marcas na pronúncia do “R” e do “S” e tenta decifrar o jeito de falar de uma capital formada por vozes de todo o país

Brasília cresceu ouvindo muitos sotaques ao mesmo tempo. Veio gente do Nordeste, de Minas, de Goiás, do Rio, do Sul, do Norte. Vieram operários, servidores, famílias inteiras, modos de falar, ritmos de frase, jeitos de puxar vogais e mastigar consoantes. Talvez por isso, durante muito tempo, a capital tenha cultivado uma ideia curiosa sobre si mesma: a de que o brasiliense não tem sotaque.

A pesquisa conduzida na Universidade de Brasília (UnB) começa justamente a desmontar esse mito.

Em um estudo ainda não concluído, o professor Ronaldo Lima, do Instituto de Letras, investiga se existe, afinal, um modo de falar próprio do Distrito Federal. E os primeiros resultados indicam que sim: o brasiliense tem traços fonéticos reconhecíveis — ainda que, para muita gente, esse sotaque pareça “neutro” ou difícil de localizar no mapa.

A questão faz sentido em uma cidade que completa 66 anos e que nasceu da mistura. Brasília não herdou uma fala homogênea; construiu uma. Ao contrário de capitais com marca linguística consolidada há séculos, o DF precisou produzir sua identidade sonora a partir do encontro entre migrações. E agora, com filhos e netos dessa primeira geração já adultos, começa a surgir material suficiente para observar o que ficou dessa mistura.

Foi essa percepção que levou Ronaldo Lima à pesquisa. Brasiliense, casado com uma brasiliense e morador por anos de Fortaleza, ele conta que chamava atenção por soar “de fora”, mas sem que ninguém soubesse dizer exatamente de onde.

Esse estranhamento virou pista de investigação.

Para tentar capturar os sons do quadradinho, o estudo ouviu 30 brasilienses de segunda geração, com idades entre 18 e 40 anos. Primeiro, os voluntários responderam a um questionário com dados sobre origem familiar, escolaridade e regiões onde viveram no DF. Depois, passaram por gravações em quatro etapas: leitura de frases, leitura de uma fábula usada em estudos de fonética, descrição espontânea de um vídeo e simulação de entrevista.

A ideia era comparar a fala monitorada com a fala mais natural.

Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, alguns traços já começaram a aparecer. Um deles está na pronúncia do “R”, que tende a soar como uma leve aspiração da garganta — diferente do chamado “R caipira” e também distante do som vibrado com a ponta da língua. Outro aparece no “S”: ao que tudo indica, o brasiliense não chia como o carioca.

Pode parecer pouco, mas é justamente aí que um sotaque começa a se revelar: não necessariamente em um sinal espalhafatoso, mas em escolhas consistentes de sons, repetidas por um grupo de falantes.

Para Ronaldo Lima, se essas escolhas aparecem de forma regular, então há, sim, um sotaque. O fato de ele ser percebido como neutro diz menos sobre sua inexistência e mais sobre a dificuldade de classificá-lo. Em outras palavras: o sotaque brasiliense talvez não seja ausência de marca, mas uma marca ainda pouco nomeada.

E isso combina com a própria cidade.

Brasília sempre foi, de certo modo, um lugar de identidades em formação. Entre o concreto planejado e a vida real que o ocupou, a capital aprendeu a ser muitas coisas ao mesmo tempo. Seu jeito de falar parece seguir essa lógica: não é puro, nem regionalmente fechado, nem fácil de encaixar. É um sotaque feito de cruzamentos.

Os próximos passos da pesquisa devem aprofundar justamente essa percepção: por que tanta gente escuta um brasiliense e sente que ele fala “diferente”, mas não consegue dizer de onde vem essa diferença?

Talvez porque Brasília tenha produzido, ao longo de seis décadas, algo raro no Brasil: uma fala que nasceu da soma de muitas outras e, ainda assim, começou a virar voz própria.

No fim, a pergunta “brasiliense tem sotaque?” parece estar ganhando uma resposta cada vez mais clara. Tem, sim. Só que, como a cidade, ele também foi construído.