Riqueza no Brasil não mora só no bolso — mora no código

Autor de Coisa de Rico, Michel Alcoforado mergulha no universo dos multimilionários e indica leituras para entender como dinheiro, aparência e comportamento moldam o poder

Entender a riqueza no Brasil exige mais do que observar cifras, patrimônio e consumo. Exige decifrar gestos, linguagem, estética, comportamento e pertencimento. É justamente esse mergulho que o antropólogo Michel Alcoforado propõe em Coisa de Rico, livro em que investiga as engrenagens simbólicas que sustentam a vida dos multimilionários brasileiros e a forma como a elite constrói distinção no país.

Longe de tratar o dinheiro apenas como acúmulo material, o autor aponta que a lógica da riqueza passa também pela performance social. Em sua leitura, ter dinheiro é só o começo. O verdadeiro desafio, sobretudo no topo da pirâmide, está em convencer os outros de que se pertence àquele lugar — e isso envolve dominar códigos que vão da roupa ao corpo, da fala à postura.

A pesquisa, segundo o próprio Michel Alcoforado, teve impacto direto em sua vida pessoal. Para circular com mais naturalidade entre os muito ricos, ele alterou hábitos, aparência, vestuário e até o corpo, chegando a perder 40 quilos ao longo do processo. A experiência reforçou uma percepção central do livro: no Brasil, a desigualdade também é encenada.

Essa constatação ajuda a explicar por que o debate sobre riqueza e dinheiro vai muito além da economia. Ele toca em temas como statuscapital simbólicodistinção social e os mecanismos sutis que definem quem é visto como pertencente — e quem continua do lado de fora, mesmo quando tem recursos.

Ao aprofundar esses temas, o autor também propõe novas portas de entrada para quem deseja pensar melhor o universo dos ricos e as estruturas que cercam o dinheiro. A ideia é ampliar a discussão para além do fascínio superficial com o luxo, buscando entender o que a riqueza revela sobre o próprio Brasil.

Em Coisa de Rico, Michel Alcoforado joga luz sobre uma elite que não se sustenta apenas pelo que tem, mas pelo modo como aprendeu a se apresentar ao mundo. E talvez esteja justamente aí uma das chaves mais importantes do livro: mostrar que, no país da desigualdade crônica, a riqueza também é uma linguagem.

Abaixo ele indica alguns livros para aprofundar ainda mais no tema:

A Distinção (Editora Souk), de Pierre Bourdieu, por R$ 111,92

Resultado das pesquisas realizadas nos anos 70 pelo sociólogo francês a respeito dos processos que firmam as diferenciações sociais: da forma de comer e se vestir à maneira de apreciar obras de arte. Disponível em Amazon

O Lugar (Editora Fósforo), de Annie Ernaux, a partir de R$ 54,90

Misturando história pessoal e sociologia, a escritora francesa parte de um olhar sobre a vida do próprio pai para investigar relações familiares e de classe. Disponível em Amazon

Mudar: Método (Todavia), de Édouard Louis, a partir de R$ 53,92

Outra leitura obrigatória vinda da França: Louis narra o processo de profunda transformação que o levou do interior do país à efervescência de Paris – uma fuga de seu passado doloroso. Disponível em Amazon