Acordo de Goiás com EUA sobre terras raras expõe corrida por protagonismo e irrita Brasília

Estado avança em parceria internacional antes de regra nacional consolidada e abre novo foco de tensão com o Governo Federal em torno de minerais estratégicos

O acordo firmado entre Goiás e os Estados Unidos para o desenvolvimento da cadeia de terras raras vai além de uma agenda técnica. Ele escancara uma disputa política e federativa em torno de um tema que o Governo Federal ainda tenta organizar: o futuro brasileiro no mercado de minerais estratégicos.

Ao assinar o memorando, o governo estadual de Ronaldo Caiado se posiciona de forma ativa em um setor de alto valor geopolítico, sem esperar a consolidação de uma diretriz nacional. O gesto foi lido por interlocutores de Brasília como uma antecipação incômoda, especialmente porque ocorre em um momento em que o tema ainda está em debate no Executivo e no Congresso.

O ponto mais sensível da reação federal está no compartilhamento de informações geológicas com os Estados Unidos. Embora o governo goiano sustente que os dados serão públicos ao final dos estudos e que não haverá restrição de acesso, o simples fato de uma parceria desse tipo avançar antes de uma política nacional definida já foi suficiente para acender alertas.

A administração estadual, por sua vez, insiste que não invade a competência da União. Segundo seus representantes, a exploração mineral segue sob controle federal, e o papel de Goiás está ligado à estrutura econômica da mineração, com foco em formação técnica, pesquisa, ambiente de negócios e preparação de uma cadeia produtiva local.

Ainda assim, o episódio deixa claro que a corrida por terras raras no Brasil já começou — e não apenas entre países e investidores, mas também entre esferas de poder dentro do próprio país. Goiás parece apostar que, ao se antecipar, poderá sair na frente na atração de investimentos, no desenvolvimento de tecnologia e na montagem de um ecossistema industrial antes mesmo de o marco nacional estar completamente desenhado.

Outro aspecto que reforça essa leitura é o movimento internacional do estado. A parceria com os EUA não é isolada: Goiás já assinou acordo semelhante com o Japão e negocia novo entendimento com a Coreia do Sul. A estratégia é evidente: criar uma rede de interesse estrangeiro em torno do estado e ampliar sua relevância em um setor que tende a ganhar peso cada vez maior nos próximos anos.

No fundo, a tensão provocada pelo memorando revela um ponto central: quem vai liderar a agenda das terras raras no Brasil? O governo federal, com uma política nacional ainda em construção, ou estados que já decidiram ocupar esse espaço por conta própria? Goiás, pelo menos por enquanto, parece ter escolhido a segunda opção.