Terror, sanções e soberania: Trump mira PCC e CV e acende alerta em Brasília

A possível classificação das facções brasileiras como Foreign Terrorist Organizations pelos EUA pode endurecer o cerco financeiro, elevar a tensão diplomática e empurrar o debate sobre crime organizado para um terreno muito mais explosivo.

A discussão sobre PCC e Comando Vermelho entrar na lista de organizações terroristas estrangeiras dos Estados Unidos não nasce do nada — e tampouco é apenas semântica. Em maio de 2025, o governo brasileiro já havia rejeitado um pedido do Departamento de Estado para enquadrar as duas facções nessa categoria. Na ocasião, Washington argumentou que a medida ajudaria a ampliar sanções, atingir cadeias de financiamento e responder à atuação transnacional desses grupos; Brasília rebateu dizendo que se trata de organizações criminosas voltadas ao lucro, e não de estruturas com motivação política ou ideológica. 

Se o enquadramento avançar agora, o impacto vai bem além do discurso duro. Pela legislação americana, o secretário de Estado precisa comunicar o Congresso antes da designação, e o ato só produz efeito após publicação no Federal Register. A partir daí, entram em cena bloqueio de ativos, restrições severas a transações e risco jurídico ampliado para quem for acusado de oferecer apoio material a grupos classificados como terroristas. Em outras palavras: não é apenas um rótulo; é uma mudança de patamar no tratamento legal e financeiro dessas facções.

O precedente recente ajuda a entender o tamanho da encrenca. Em fevereiro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA designou o cartel de Sinaloa, o Tren de Aragua e outros grupos latino-americanos como terroristas globais. Depois disso, especialistas ouvidos pela Reuters alertaram para o aumento do risco de processos criminais, ações civis e punições contra empresas ou pessoas acusadas de manter relações financeiras, ainda que indiretas, com áreas controladas por essas organizações. Para o mercado, a palavra “terrorismo” muda o cálculo de risco quase da noite para o dia.

É justamente aí que a temperatura política sobe. A Casa Branca de Donald Trump vem empurrando a política antidrogas para um campo cada vez mais militarizado. Na última semana, o assessor Stephen Miller afirmou que cartéis “só podem ser derrotados com poder militar”, e Trump anunciou uma coalizão com 17 países para “erradicar cartéis” no hemisfério. Nesse ambiente, a eventual designação de CV e PCC deixa de ser uma peça burocrática e passa a carregar um peso geopolítico que inquieta governos da região — inclusive o brasileiro. 

O temor de Brasília tem endereço claro: soberania. O governo Lula sustenta que o problema deve ser tratado como segurança pública e combate ao crime organizado, não como guerra ao terror. O receio é que o enquadramento americano abra espaço para pressões diplomáticas, financeiras e até operacionais sobre um tema que o Brasil considera doméstico. Esse medo não é teórico: em agosto de 2025, Marco Rubio afirmou que a classificação de cartéis como terroristas permitiria aos EUA usar “outros elementos do poder americano”, inclusive inteligência e Defesa, contra esses grupos. 

Ao mesmo tempo, o combate ao crime organizado transnacional virou peça central da agenda bilateral. Em dezembro de 2025, Lula e Trump conversaram por telefone sobre comércio, sanções e cooperação contra redes criminosas internacionais. O Planalto passou a defender maior compartilhamento de inteligência, especialmente para atacar a lavagem de dinheiro e as conexões financeiras dessas facções fora do Brasil. Ou seja: há espaço para cooperação entre os dois países — mas não necessariamente sob o carimbo político e jurídico do terrorismo. 

No fim das contas, a possível ofensiva dos EUA contra PCC e Comando Vermelho escancara uma pergunta incômoda: até onde vai a colaboração internacional no combate ao crime e em que ponto ela começa a atravessar a autonomia brasileira? Se Washington avançar, o efeito será duplo: endurece o cerco econômico sobre as facções e, ao mesmo tempo, empurra Brasil e Estados Unidos para uma zona cinzenta em que diplomacia, segurança e estratégia militar passam a disputar o mesmo espaço. Pelo rito legal americano, porém, esse enquadramento só se consolida depois da tramitação formal com o Congresso e da publicação oficial. Até lá, trata-se de uma articulação de alto impacto — mas ainda não de um fato jurídico consumado.