All Her Fault: quando o suspense falha ao confundir choque com profundidade

A série do Prime Video aposta no excesso, mas tropeça ao transformar trauma em espetáculo

Vendida como um dos thrillers psicológicos mais perturbadores do ano, All Her Fault começa com eficiência cirúrgica e termina afogada nas próprias ambições. Ao longo de oito episódios, a série constrói um quebra-cabeça envolvendo sequestro infantil, culpa parental e segredos familiares, mas perde o controle da narrativa ao optar por reviravoltas cada vez mais extremas — e menos verossímeis.

A promessa inicial é poderosa: um menino desaparece, uma mãe em colapso emocional e um ambiente doméstico onde ninguém é exatamente quem parece ser. O problema é que, à medida que a história avança, o roteiro abandona o suspense psicológico em favor de uma sucessão de revelações que soam mais como exercícios de crueldade narrativado que como desenvolvimento dramático consistente.


O sequestro de Milo: impacto sem sutileza

O desaparecimento de Milo é o motor da série, mas também seu maior sintoma de desequilíbrio. A revelação de que o sequestro está ligado a uma troca de bebês causada por um acidente antigo até carrega potencial trágico, porém é apresentada de forma apressada e excessivamente explicativa.

A personagem Josephine surge como antagonista trágica, mas o texto insiste em empurrá-la para o arquétipo da vilã obsessiva, esvaziando qualquer possibilidade de ambiguidade moral. O resultado é um conflito que poderia ser devastador emocionalmente, mas acaba reduzido a uma engrenagem funcional de choques narrativos.


Peter Irvine: o vilão que engole a série

Se há um consenso possível, é este: Peter Irvine é o verdadeiro monstro da história. Mentiroso compulsivo, manipulador e moralmente falido, ele concentra em si praticamente todos os pecados da trama. O problema é que a série exagera tanto em sua vilania que o personagem deixa de ser humano para virar um dispositivo de roteiro.

Cada novo segredo revelado — da troca de bebês ao assassinato frio, passando por chantagens e omissões — empilha horrores sem dar espaço para reflexão. Em vez de discutir culpa, responsabilidade ou trauma, All Her Fault prefere acelerar rumo ao próximo choque.


Mortes demais, consequências de menos

A segunda metade da série é marcada por uma sequência de mortes que beira o automatismo. Personagens morrem não porque a história exige, mas porque o roteiro parece incapaz de avançar sem eliminar alguém.

O ápice desse problema está na resolução final: justiça é substituída por conveniência, e crimes graves são varridos para debaixo do tapete em nome de uma catarse artificial. O silêncio cúmplice das autoridades não soa como crítica ao sistema — soa como atalho.


Um final que confunde libertação com esquecimento

O desfecho tenta vender a ideia de reconstrução: nova casa, novos laços, uma sensação de recomeço. Mas tudo isso acontece rápido demais, raso demais. O trauma que deveria marcar para sempre os sobreviventes é tratado como um obstáculo superado, quase burocrático.

A série encerra sem enfrentar suas próprias perguntas centrais. Quem paga pelos erros? Até onde vai a culpa? Existe redenção depois de tanto horror? All Her Fault prefere o conforto de um ponto-final elegante a encarar o peso real das respostas.


Vale a pena assistir?

All Her Fault não é uma série ruim — mas é uma série desperdiçada. Há boas atuações, uma premissa forte e momentos de tensão genuína. O que falta é coragem para confiar no silêncio, na ambiguidade e no desconforto que não precisa ser explicado.

No fim, fica a sensação de que a produção confundiu intensidade com profundidade. O choque impressiona, mas não permanece. E para um thriller psicológico, isso é a falha mais grave de todas.