Enquanto no Brasil as uniões duram em média 13,8 anos, no Distrito Federal o tempo médio é de 12,9 anos; especialistas associam cenário ao estilo de vida e às mudanças emocionais
Os casamentos estão mais curtos em todo o país — e, no Distrito Federal, esse movimento é ainda mais evidente. Dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que, enquanto a duração média dos casamentos no Brasil é de 13,8 anos, no DF as uniões terminam, em média, após 12,9 anos, abaixo da média nacional.
No ranking dos estados com casamentos menos duradouros, o Distrito Federal aparece atrás apenas de Goiás (12,7 anos), Mato Grosso do Sul (11,8), Acre (11,1), Rondônia (11) e Roraima (10,2). As informações fazem parte da Estatística do Registro Civil, divulgada em dezembro pelo IBGE, com base nas uniões formalizadas em 2024.
Comunicação e mudanças individuais pesam nas separações
Para a advogada Anna Cabral, que se divorciou em 2022 após dez anos de casamento, o fim de uma relação nem sempre está ligado à ausência de amor. “As relações passam por fases previsíveis, como encantamento, crise e reestruturação. No meu caso, não foi falta de afeto, mas transformações individuais que fizeram nossos projetos deixarem de se alinhar”, afirma.
Segundo ela, o desgaste raramente ocorre de forma abrupta. “Ele se instala aos poucos, com silêncios acumulados e dificuldades de comunicação. Uma união que chega a dez anos pode ser vista como um ciclo de vida emocional compartilhada, não como fracasso”, avalia.
A advogada destaca que comunicação clara e revisões constantes dos acordos do casal são fatores decisivos para a longevidade das relações — algo que, segundo ela, nem sempre acontece.
Estilo de vida do DF influencia duração dos casamentos
Na avaliação da psicóloga Júlia Gouveia, o contexto do Distrito Federal ajuda a explicar os números. “Brasília reúne cargas de trabalho elevadas, instabilidade profissional em alguns setores, mudanças frequentes e facilidade de acesso ao divórcio. Esses fatores podem estar correlacionados ao encurtamento das relações, embora não sejam causas isoladas”, explica.
Na clínica, segundo Júlia, a queixa mais comum entre casais não é a infidelidade, mas a dificuldade de comunicação. “Muitos relatam que não conseguem se fazer entendidos ou que deixaram de cuidar do vínculo ao longo do tempo”, diz. Ela ressalta que a terapia de casal não tem como objetivo manter a relação a qualquer custo, mas ajudar o casal a compreender seus impasses e decidir com mais consciência.
Mais consciência emocional, menos permanência por obrigação
Para Anna Cabral, os dados do IBGE refletem uma mudança de mentalidade. “Hoje, as pessoas estão menos dispostas a permanecer em relações que não oferecem segurança emocional. Há mais respaldo jurídico e social para decisões difíceis”, afirma.
Esse movimento aparece também em outros indicadores do levantamento do IBGE, que apontam transformações no perfil das uniões no país.
📊 Cinco fatos sobre casamentos no Brasil (IBGE)
- O número de divórcios caiu pela primeira vez desde 2019: em 2024, foram 428.301, queda de 2,8% em relação a 2023.
- Os casamentos homoafetivos atingiram o maior patamar da série histórica: crescimento de 8,8% no Brasil e 19,7% no DF.
- As regiões Sul e Nordeste têm os casamentos mais duradouros (média de 15 anos); o Centro-Oeste, a menor (12,6 anos).
- Em casamentos heterossexuais, a diferença média de idade é de cerca de dois anos: homens se casam aos 31,5, mulheres aos 29,3.
- Nos casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, a idade média é de 34,7 anos entre homens e 32,5 anos entre mulheres.
Os dados reforçam que o casamento no Brasil não deixou de existir — mas passou a ser vivido sob novas regras emocionais, sociais e jurídicas, especialmente em capitais como Brasília.