Senado aprova “Lei da Reciprocidade”, mas nega retaliação a tarifaço de Trump

Projeto dá poder à Camex para reagir a barreiras comerciais impostas ao Brasil; texto segue agora para a Câmara dos Deputados

Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado aprovou, nesta terça-feira (1º), o Projeto de Lei 2088/2023, que autoriza o governo brasileiro a adotar sanções comerciais em resposta a barreiras impostas por outros países. Aprovado por unanimidade — com 16 votos favoráveis —, o texto foi batizado informalmente como Lei da Reciprocidade Econômica e agora segue para apreciação na Câmara dos Deputados.

Embora a proposta abra caminho para uma eventual resposta ao tarifaço anunciado pelo ex-presidente Donald Trump, os senadores fizeram questão de afastar qualquer intenção de retaliação direta aos Estados Unidos.

“O projeto não é uma retaliação aos Estados Unidos”, afirmou o presidente da CAE, Renan Calheiros (MDB-AL), ao justificar a votação. Segundo ele, a tramitação da matéria no Senado começou há cerca de um ano, antes do anúncio das novas tarifas por parte de Trump.


⚖️ Do meio ambiente à competitividade: o novo escopo da reciprocidade

O texto aprovado é um substitutivo da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que ampliou significativamente o alcance da proposta original. O projeto, de autoria do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), previa inicialmente medidas apenas em resposta a restrições ambientais aplicadas por outros países.

A nova versão permite que o Brasil adote medidas de reciprocidade comercial, de investimentos e até sobre propriedade intelectual, sempre que políticas externas interferirem na soberania nacional, prejudicarem acordos multilaterais ou impuserem exigências ambientais excessivas.

A execução das medidas será de responsabilidade da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão interministerial vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).


🌎 A lei em três frentes: soberania, acordos violados e barreiras verdes

A proposta define três situações em que o Brasil poderá adotar medidas de reciprocidade:

  1. Ações que interfiram na soberania nacional, tentando forçar o Brasil a mudar ou cessar políticas internas por meio de ameaças comerciais, financeiras ou de investimento.
  2. Práticas que violem acordos comerciais internacionais, neguem benefícios ou prejudiquem o Brasil dentro desses pactos.
  3. Exigências ambientais unilaterais mais rígidas que as normas brasileiras, usadas como barreira ao ingresso de produtos nacionais.

“Não é uma retaliação, mas, a partir de agora, se o governo quiser agir, terá mecanismos para isso”, afirmou Tereza Cristina durante a sessão.


📉 Contexto político-econômico: o pano de fundo da aprovação

A votação ocorre em um momento delicado da política comercial internacional. A possibilidade de um retorno de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, somada à retórica protecionista do ex-presidente, reacendeu alertas entre exportadores brasileiros — especialmente do setor agrícola e metalúrgico.

O projeto aprovado confere ao Brasil instrumentos legais para reagir de forma estratégica, evitando assim ficar refém de pressões externas, especialmente quando disfarçadas de preocupações ambientais.


📌 Próximos passos

Com a aprovação em caráter terminativo pela CAE, o projeto segue para a Câmara dos Deputados e, se não houver recurso para votação em plenário no Senado, a tramitação tende a ser mais ágil. Caso aprovado pelos deputados, seguirá para sanção presidencial.

A Lei da Reciprocidade pode se tornar uma das peças-chave da estratégia brasileira de defesa comercial nos próximos anos — num mundo cada vez mais tensionado entre protecionismo e sustentabilidade.