R$ 78,1 milhões mudam a cara das delegacias do DF — e o modo como a vítima é recebida

Com novo IML, delegacia erguida do zero em Sobradinho II e reformas em seis unidades, Polícia Civil aposta em infraestrutura, separação de fluxos e atendimento mais humanizado

No Distrito Federal, a modernização das delegacias deixou de ser apenas obra de concreto e passou a alcançar um ponto mais sensível da segurança pública: a forma como o cidadão é recebido quando procura ajuda. Entre 2019 e 2025, o governo local investiu R$ 78,1 milhões em unidades da Polícia Civil, em um pacote que incluiu a construção de uma nova delegacia em Sobradinho II, a reforma de seis unidades e a entrega de uma nova estrutura para o Instituto Médico Legal, no Plano Piloto. 

O centro desse ciclo de investimentos foi o novo IML, inaugurado com aporte de mais de R$ 47,8 milhões. Com 12 mil metros quadrados, o prédio foi projetado para separar o acesso de vítimas e familiares daquele destinado a detentos, além de incluir laboratórios modernos, salas de necropsia atualizadas e espaços exclusivos para atendimento de vítimas de crimes sexuais. Na prática, a mudança tenta responder a uma crítica antiga: a de que, em estruturas precárias, o sofrimento de quem busca atendimento acabava frequentemente exposto a mais constrangimento. 

Segundo a Polícia Civil, esse redesenho também orientou a nova 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho II, construída com investimento de R$ 10,5 milhões. A unidade substituiu a antiga sede e foi planejada com entradas separadas para custodiados e para o público em geral, sala de acolhimento para mulheres vítimas de violência, estacionamento ampliado e até heliporto, ao lado da UPA da cidade. A lógica é a mesma do novo IML: reduzir revitimização, aumentar segurança e adaptar a estrutura policial a um padrão de atendimento mais reservado. 

Além da obra em Sobradinho II, passaram por reforma a Deam I, na Asa Sul, a 17ª DP, em Taguatinga Norte, a 9ª DP, no Lago Norte, a 10ª DP, no Lago Sul, o posto policial do aeroporto e a Divisão de Operações Aéreas. O pacote incluiu ainda a criação de três Núcleos de Atendimento à Mulher — no Riacho Fundo, em Vicente Pires e no Núcleo Bandeirante —, além da requalificação do Instituto de Pesquisa de DNA Forense e da descentralização de serviços com a criação da Deam II e de um IML em Ceilândia. Hoje, a PCDF informa ter 31 delegacias distribuídas pelo DF, além de unidades especializadas. 

Há também uma camada menos visível, mas igualmente importante, dessa modernização: a digital. O DF foi pioneiro no registro online de casos de violência doméstica com pedido de medida protetiva, por meio da delegacia eletrônica, o que permitiu que vítimas acionassem a polícia sem sair de casa. Em paralelo, desde 2019 o Distrito Federal voltou a contar com delegacias funcionando 24 horas por dia, um dado que o governo relaciona à ampliação da capacidade de atendimento e investigação. 

O investimento em estrutura vem acompanhado de um discurso mais amplo sobre segurança. A Agência Brasília afirma que a volta das delegacias 24 horas contribuiu para que a capital fosse apontada, em 2024, como a segunda capital mais segura do país, segundo o Atlas da Violência. Ainda que rankings desse tipo dependam de uma série de variáveis, o governo tenta associar a modernização física das unidades a uma política mais abrangente de eficiência policial e presença do Estado. 

Para 2026, a agenda continua aberta. Já foi assinada a ordem de serviço para a nova sede da 12ª DP, em Taguatinga, com investimento superior a R$ 15 milhões. Também estão em fase de contratação uma nova sede para a Divisão de Operações Especiais, com valor semelhante, e uma nova policlínica no Complexo da Polícia Civil, na Asa Sul, estimada em R$ 34 milhões. No papel, é a continuidade de uma estratégia de reestruturação. Na prática, o desafio será fazer com que prédios mais modernos se convertam, de fato, em atendimento mais eficiente, mais digno e menos traumático para quem cruza a porta de uma delegacia em um dos piores dias da vida.