Em resposta dura a Washington, Ministro das Relações Exteriores lê carta da diplomacia brasileira, classifica críticas norte-americanas ao Pix como “descabidas” e detalha as mais de 30 reuniões bilaterais fracassadas
O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, subiu o tom contra o governo dos Estados Unidos nesta quinta-feira (16). Durante a leitura de uma carta oficial da diplomacia brasileira, o chanceler rebateu as acusações de “má-fé” feitas pelo Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e justificou a imposição da barreira comercial como uma reação de Washington à soberania do governo brasileiro.
“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações”, disparou Vieira.
A declaração ocorre um dia após o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) oficializar a taxação extra de 25% sobre cerca de 20% das exportações brasileiras, prevista para vigorar a partir do próximo dia 22 de julho.
Defesa do Pix: “Não é sério falar em competição desleal”
O principal ponto de discordância pública entre as duas potências econômicas reside na tecnologia e na infraestrutura financeira. No relatório que fundamentou as sanções com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, os EUA apontaram o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil como prejudicial às operadoras norte-americanas.
Mauro Vieira classificou a acusação norte-americana como infundada e explicou a natureza do sistema:
- Infraestrutura democrática: O chanceler frisou que o Pix é um serviço de utilidade pública do Banco Central do Brasil, acessível a qualquer instituição financeira nacional ou estrangeira que decida operar no país de forma regular.
- Declaração do ministro: “O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix”, rebateu na carta.
O histórico de negociações: mais de 30 reuniões
Para contrapor a versão do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio — que alegou no X (antigo Twitter) que o presidente Lula colocou o “próprio ego” à frente do bem-estar do povo brasileiro —, o Itamaraty detalhou o intenso esforço diplomático realizado ao longo do último ano.
Apesar da agenda cheia de reuniões, diplomatas brasileiros ressaltaram que a delegação de Donald Trump demonstrou intransigência em relação a temas que feriam a soberania regulatória e nacional brasileira — como o controle do Pix e a intervenção em decisões do Judiciário sobre redes sociais.
Próximos passos: Reciprocidade e OMC
Como o diálogo diplomático não surtiu efeito prático, o governo brasileiro confirmou que não aceitará a taxação de forma passiva. Em consonância com a nota emitida pelo Palácio do Planalto, Mauro Vieira indicou as seguintes frentes de reação:
- Lei de Reciprocidade: O Brasil aplicará tarifas proporcionais equivalentes sobre produtos dos EUA, utilizando o instrumento legal aprovado pelo Congresso Nacional.
- Organização Mundial do Comércio (OMC): O Ministério das Relações Exteriores acionará imediatamente o Órgão de Solução de Controvérsias da OMC para denunciar a ilegalidade e a arbitrariedade das tarifas americanas.
- Plano Brasil Soberano: Ativação de um pacote de incentivos, diversificação de novos mercados de exportação (como Ásia e União Europeia) e socorro financeiro para blindar a cadeia produtiva e os empregos nacionais nos setores atingidos.