Com narrativa fragmentada, woke, com concessões ideológicas e elenco desajustado, longa de quase três horas em IMAX esvazia o épico grego de sua magia e grandiosidade
O diretor Christopher Nolan, consagrado por produções como Interstellar e O Grande Truque, assumiu uma das tarefas mais ambiciosas de sua carreira: adaptar para os cinemas o poema épico “A Odisseia”, de Homero. O resultado, contudo, é uma decepção de proporções mitológicas. Filmado no imponente formato IMAX e amparado por um orçamento astronômico, o longa-metragem naufraga ao tentar encaixar a Grécia Antiga nos moldes da pós-modernidade e nos excessos estruturais do diretor.
Em vez de honrar a tradição de grandes adaptações clássicas do cinema — como o irretocável Ulisses (1954), de Mario Camerini, protagonizado por Kirk Douglas —, Nolan preferiu dobrar-se à pauta identitária vigente e à sua própria obsessão por linhas temporais embaralhadas. O que se vê na tela é um “Wokemero” fatiado, deficitário em termos de empolgação e desprovido do senso de maravilhoso.
Uma “jiga-joga” temporal que cansa o espectador
Se Homero já havia pavimentado um caminho de aventura extraordinário, Nolan optou deliberadamente por complicar o que deveria ser linear. Com a precisão de um “talhante canhestro com pretensões a cirurgião”, o diretor retalhou a narrativa em uma constante jiga-joga temporal que vai e volta sem critérios claros.
Um exemplo claro dessa bagunça estrutural ocorre no episódio de Ulisses e Calipso: a dinâmica surge de forma abrupta, é explicada ao espectador “aos bochechos” e, de repente, o herói é cuspido de volta à praia de Ítaca. Para quem conhece a obra clássica, o formato é irritante; para quem nunca a leu, o filme torna-se um enigma incompreensível.
Aventura fantástica reduzida a videogame
A essência de A Odisseia reside no assombro de suas criaturas, deuses e provações. No entanto, o filme de Nolan carece do “sobressalto do maravilhoso”. As sequências mais icônicas da jornada do herói parecem saídas de telas de transição de um console moderno:
Polifemo e as Sereias: O confronto na caverna do Ciclope e a travessia por Cila e Caríbdis são filmados com uma estética rasa de jogo de videogame.
A Circe de casebre: A icônica feiticeira Circe perde toda a sua aura de realeza. Em vez de habitar um palácio magnífico, vive em uma cabana simplória e transforma a tripulação de Ulisses em porcos literalmente com as próprias mãos.
O massacre dos pretendentes: O clímax do retorno de Ulisses à sua pátria, que deveria ser um acerto de contas dramático e tenso, é convertido em uma cena de ação espalhafosa e genérica de Hollywood.
Elenco sem porte e desprovido de garra dramática
Se a estrutura narrativa do longa já compromete a experiência, a escolha do elenco termina de sepultar a produção. Não há no filme um único ator de origem grega — mesmo em papéis secundários —, e o elenco principal carece do porte físico e da atitude dramática exigidos pelo peso histórico de suas respectivas personagens:
O Ulisses de Matt Damon surge monocórdico e trombudo, mais parecido com um trabalhador braçal de Brooklyn do que com o astuto herói mitológico. Sua inteligência e coragem são postas de lado para dar lugar a um guerreiro torturado por dúvidas modernas e um discurso pacifista que soa postiço e anacrônico durante o saque de Tróia.
Ao seu lado, Tom Holland entrega um Telêmaco sem qualquer força dramática; Robert Pattinson interpreta um Antínoo indiferente; Elliot Page surge inverosímil como soldado; e Zendaya dá vida a uma deusa Atena de tom arrogante e sem qualquer brilho celestial.
Ficha Técnica e Veredicto
A disparidade entre as ferramentas técnicas à disposição de Christopher Nolan e o resultado final é abissal. Com quase três horas de duração mal aproveitadas, uma trilha sonora excessivamente ribombante e inútil, e a total ausência de um arco dramático que faça o espectador de fato sentir a passagem dos anos de espera de Penélope, A Odisseia falha em todos os seus propósitos épicos.
Título: A Odisseia (The Odyssey)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Zendaya, Robert Pattinson, Elliot Page
Duração: 180 minutos
Formato: IMAX / Digital
Perante tamanho desperdício de potencial e de orçamento, a única reação possível ao sair da sala de cinema é suspirar e clamar: valha-nos Zeus e todos os habitantes do Olimpo.
Nosso site utiliza cookies para melhorar a navegação e a experiência do usuário. Ao clicar em "aceitar", você concorda com o uso de todos os cookies.