Bullying avança entre adolescentes e escolas reforçam reação com escuta e trabalho com famílias

Após alta da recorrência apontada pela PeNSE, colégios do DF apostam em formação socioemocional, mediação e prevenção contínua

O bullying continua atravessando o cotidiano escolar brasileiro com uma persistência que vai além dos números frios. Dados da edição 2024 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados em março de 2026, mostram que 39,8% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram já ter sofrido bullying e que 27,2% relataram humilhações repetidas, duas ou mais vezes, sinal de que a violência não apenas permanece, mas se repete com mais intensidade. As meninas aparecem como as mais atingidas: 43,3% disseram já ter sido alvo de bullying, e 30,1% relataram episódios recorrentes. Aparência do rosto ou do cabelo, corpo e cor ou raça estão entre os principais alvos. 

É diante desse cenário que escolas do Distrito Federal vêm tentando sair do discurso genérico e investir em práticas mais concretas de prevenção. No material enviado, instituições como o Colégio Objetivo DF e a Heavenly International School relatam que têm reforçado estratégias voltadas à convivência, ao desenvolvimento socioemocional e ao envolvimento direto das famílias, numa tentativa de agir antes que a violência se normalize no ambiente escolar. 

Divulgação Colégio Objetivo DF

Na leitura de Áurea Bartoli, diretora de Formação Integral da Heavenly, o ponto mais preocupante não é apenas o volume de casos, mas a repetição deles. Segundo ela, a recorrência indica falhas no enfrentamento institucional e exige resposta mais estruturada. No colégio, uma das frentes de trabalho é a campanha das “4 Golden Rules”, aplicada com crianças de 2 a 10 anos como referência prática para respeito, gentileza, responsabilidade e segurança, apoiada em atividades concretas e recursos pedagógicos voltados à empatia.

No Colégio Objetivo de Águas Claras, a resposta passa por dinâmicas como a “Mala dos Sentimentos”, em que os alunos são estimulados a reconhecer e nomear emoções como tristeza, medo e raiva. A proposta, segundo a orientadora educacional Raquel Leite, é criar um espaço seguro para que dores e experiências deixem de ficar escondidas. A escola também reforça com os estudantes a diferença entre brincadeira e agressão, numa tentativa de desmontar uma das banalizações mais comuns do problema.

O debate não acontece isolado. O próprio Ministério da Educação tem ampliado a pressão por políticas permanentes de prevenção. Pelo programa Escola que Protege, lançado em 2024, o MEC afirma que busca fortalecer a capacidade das redes de ensino para prevenir e enfrentar a violência nas escolas, com formação continuada, apoio psicossocial, planos de resposta e incentivo à cultura de paz e à convivência democrática. Em abril, a pasta também voltou a destacar materiais orientadores específicos para o combate ao bullying. 

Há ainda uma dimensão que especialistas consideram decisiva: a participação da família. No texto enviado, Áurea Bartoli sustenta que nem todo conflito escolar é bullying e que a compreensão correta do fenômeno, quando compartilhada entre escola e responsáveis, melhora a qualidade da intervenção. A mesma linha aparece no relato do Objetivo, que defende resposta rápida, informação constante e acompanhamento continuado diante de qualquer denúncia.

Os dados da PeNSE ajudam a mostrar por que essa articulação importa. A pesquisa identificou também que 12,7% dos adolescentes disseram ter sofrido bullying nas redes sociais, enquanto 10% admitiram já ter praticado cyberbullying, evidenciando que a violência entre pares já não se limita ao pátio e acompanha os estudantes para fora da escola. 

No fundo, o que a estatística nacional e as experiências locais escancaram é o mesmo impasse: bullying não se enfrenta com campanha isolada nem com cartaz em corredor. Exige rotina, escuta, intervenção e presença adulta consistente. Quando a humilhação vira repetição, o silêncio da escola também passa a ser parte do problema.