Levantamento da Serasa mostra que o Distrito Federal tem um dos maiores índices do país, acima da média nacional, e reforça o peso das dívidas no orçamento das famílias
A inadimplência voltou a crescer no Distrito Federal e alcançou, em fevereiro de 2026, um dos patamares mais altos do país. Segundo levantamento da Serasa, 62,11% da população adulta do DF está inadimplente, percentual superior ao registrado no fim de 2025 e bem acima da média nacional atual, de 49,87%.
Com esse resultado, o Distrito Federal aparece entre as unidades da federação com maior proporção de inadimplentes no Brasil, atrás apenas do Amapá. O dado evidencia um cenário de forte pressão sobre a renda das famílias brasilienses e acompanha uma tendência de deterioração observada em escala nacional.
No país, o número de inadimplentes chegou a 81,7 milhões de pessoas, alta de 0,51% em relação a janeiro. O volume total de dívidas somou 332,1 milhões, com avanço mensal de 1,52%. Já o valor médio devido por consumidor alcançou R$ 6.598,13, enquanto cada dívida, em média, chegou a R$ 1.623,40. O estoque total das dívidas no Brasil já atinge R$ 539 bilhões.
Os números indicam que o problema não se resume ao aumento de pessoas negativadas. Também cresce o valor médio devido, o que sugere comprometimento cada vez maior da renda familiar e mais dificuldade para reorganizar o orçamento.
No Distrito Federal, onde mais de seis em cada dez adultos estão inadimplentes, o cenário expõe a vulnerabilidade das famílias diante do uso recorrente de modalidades de crédito com juros elevados, como cartão de crédito rotativo, cheque especial e parcelamentos prolongados. Sem planejamento, esses instrumentos acabam ampliando o peso dos juros e dificultando a redução do saldo principal da dívida.
Para a presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira no Distrito Federal, Andréa Saraiva, o quadro exige resposta estruturada. Segundo ela, os dados mostram a necessidade de ampliar ações voltadas à educação financeira e ao uso consciente do crédito, já que a falta de planejamento compromete o orçamento doméstico e limita o potencial de crescimento econômico.
Na mesma linha, Reinaldo Domingos, presidente nacional da entidade, afirma que a reversão do problema depende de método e disciplina. Para ele, é fundamental mapear todas as dívidas, entender os juros cobrados e priorizar aquelas que mais pressionam o orçamento. O processo de recuperação, segundo ele, começa quando o consumidor consegue reduzir o valor principal devido, e não apenas pagar encargos.
Especialistas apontam que o primeiro passo para sair da inadimplência é levantar detalhadamente todas as pendências, incluindo valores, prazos e taxas de juros. Em seguida, a orientação é manter em dia as contas essenciais e concentrar esforços nas dívidas mais caras. Registrar despesas por ao menos 30 dias também ajuda a identificar excessos e abrir espaço no orçamento para renegociar débitos.
A negociação com credores, porém, deve considerar a real capacidade de pagamento. Acordos assumidos sem planejamento podem apenas prolongar o problema. Em alguns casos, consolidar débitos em uma única linha de crédito, com juros menores, pode aliviar a pressão financeira e facilitar a quitação gradual.
Com 62,11% da população adulta inadimplente, o Distrito Federal enfrenta hoje um quadro que vai além das estatísticas e atinge diretamente a rotina das famílias. Nesse cenário, a educação financeira ganha peso não apenas como instrumento de organização individual, mas como ferramenta estratégica para evitar novos ciclos de endividamento e ampliar a recuperação econômica local.