Com a dívida doméstica novamente próxima do recorde e a renda cada vez mais comprimida por juros altos, a equipe econômica negocia com bancos um modelo mais enxuto — e mais focalizado — de socorro ao consumidor.
Em Brasília, o endividamento das famílias voltou a ser tratado como problema macroeconômico, não apenas social. O Ministério da Fazenda confirmou nesta semana que está desenhando, junto com bancos, fintechs e operadoras de cartão, um novo programa de renegociação de dívidas, ainda sem formato final e dependente do aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o ministro Dario Durigan, a ideia é criar uma solução “mais acessível e didática” do que o antigo Desenrola, com foco principal em quem ganha até três salários mínimos.
A pressa tem motivo. Dados recentes do Banco Central mostram que o endividamento das famílias chegou a 49,7% da renda em janeiro, praticamente encostado no pico histórico da série, enquanto o comprometimento mensal da renda com dívidas está em 29,3%. No Relatório de Política Monetária de março, o BC foi ainda mais explícito: disse que endividamento e serviço da dívida cresceram pelo segundo ano seguido e que o comprometimento da renda atingiu nível recorde no quarto trimestre de 2025.
O pano de fundo é um ambiente de crédito ainda pesado para o consumidor. Embora o Copom tenha reduzido a Selic para 14,75% ao ano em março, o Banco Central segue registrando deterioração na inadimplência. Nas estatísticas monetárias e de crédito, a taxa de inadimplência das operações com recursos livres chegou a 5,5%, e o próprio BC afirma que, entre pessoas físicas, a piora se concentrou sobretudo no cartão de crédito e no crédito pessoal não consignado — exatamente as modalidades mais caras e mais difíceis de administrar quando a renda aperta.
É nesse ponto que o governo tenta agir. Nos bastidores, a proposta em discussão vem sendo apelidada de “Desenrola 2.0”, mas o desenho é mais restrito do que o do programa original. A linha em negociação com o sistema financeiro mira sobretudo dívidas sem garantia — como rotativo do cartão, cheque especial e crédito pessoal —, com descontos que podem chegar a 80%, prazos mais longos e, segundo relatos publicados nos últimos dias, até algum tipo de garantia pública sobre a parte refinanciada da dívida remanescente. O próprio Ministério da Fazenda, porém, ressalta que os cálculos ainda estão em andamento e que os detalhes não foram fechados.
A comparação com o primeiro Desenrola é inevitável. Encerrado em maio de 2024, o programa beneficiou mais de 15 milhões de pessoas e viabilizou a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas, segundo dados oficiais. O governo também sustenta que a iniciativa ajudou a reduzir em 8,7% o número de inadimplentes dentro do público prioritário — pessoas de menor renda e inscritos no CadÚnico.
A diferença agora é que a preocupação deixou de ser apenas limpar o nome do consumidor e passou a envolver o ritmo da economia. Em relatório publicado no fim de 2025, o Banco Central já advertia que o aumento do endividamento e do comprometimento da renda vinha funcionando como freio à expansão do consumo das famílias, um dos motores da atividade no país. A lógica dentro do governo é simples: sem algum alívio sobre dívidas caras, sobra menos renda para circular na economia — e cresce o risco de que 2026 comece com famílias mais apertadas, bancos mais cautelosos e crescimento mais fraco.
Por enquanto, o que existe é uma negociação em curso, não um programa lançado. Mas o recado da equipe econômica já está dado: se o Desenrola original ajudou a reduzir o estoque de inadimplência, a nova rodada tentará atacar um problema mais espinhoso — o custo do crédito ruim que continua consumindo, mês a mês, a renda de milhões de brasileiros.