Enquanto Donald Trump afirma que o segundo tripulante de um caça abatido foi retirado com vida do Irã, autoridades iranianas dizem ter frustrado parte da operação e destruído aeronaves dos Estados Unidos.
WASHINGTON / TEERÃ — O resgate de um aviador americano em território iraniano abriu, neste domingo, um novo front na guerra já em curso entre Estados Unidos e Irã: o da narrativa. De um lado, o presidente Donald Trump celebrou o que chamou de uma das missões de busca e salvamento mais ousadas da história militar americana. De outro, a Guarda Revolucionária e o comando militar iraniano afirmaram que a operação foi atingida, sofreu perdas e terminou como mais um revés para Washington.
O episódio começou depois que um F-15E Strike Eagle dos Estados Unidos foi abatido sobre o Irã na sexta-feira. Isso é importante porque o relato inicial que circulou em alguns textos e redes mencionava um F-35; as versões da Reuters e da Associated Press apontam, porém, que a aeronave derrubada era um F-15E, com dois tripulantes a bordo. Um deles já havia sido recuperado antes. O segundo, um oficial de sistemas de armas, permaneceu desaparecido até a operação anunciada por Trump neste domingo.
Segundo a versão americana, forças especiais entraram em território iraniano e conseguiram retirar o militar, que Trump descreveu como um coronel, “ferido”, mas fora de perigo. A Reuters informou que o aviador foi encontrado numa área montanhosa e que a missão envolveu dezenas de aeronaves, sob forte risco, em meio a um conflito que já entrou em sua sexta semana.
A Associated Press acrescenta que o segundo aviador teria se escondido em uma fenda nas montanhas enquanto Washington e Teerã corriam para localizá-lo. Segundo a AP, a CIA tentou lançar informações enganosas dentro do Irã para confundir as autoridades locais e ganhar tempo até a localização exata do militar, antes de a Casa Branca autorizar a extração.
Mas a versão iraniana é outra — e muito menos favorável aos Estados Unidos. Autoridades militares do Irã disseram à Reuters que, durante a missão de resgate, suas forças destruíram dois aviões de transporte C-130 e dois helicópteros Black Hawk, além de terem abatido drones americanos e israelenses na província de Isfahan. A Reuters ressalta que não conseguiu verificar de forma independente essas alegações.
A zona cinzenta do episódio talvez esteja justamente aí. A AP relata que dois helicópteros Black Hawk americanos efetivamente foram atingidos por fogo iraniano, embora tenham conseguido retornar a espaço aéreo seguro. A agência também informa, com base em autoridades ouvidas sob anonimato, que dois aviões de transporte dos EUA tiveram de ser destruídos pelos próprios americanos depois de apresentarem falhas técnicas durante a retirada da equipe. Em outras palavras, imagens exibidas pelo Irã podem estar misturando dano infligido por suas forças com destruição feita pelos próprios Estados Unidos para impedir que equipamento caísse em mãos inimigas.
A disputa, portanto, não é apenas sobre fatos militares, mas sobre o significado político do que ocorreu. Para Trump, o resgate serve como prova de superioridade aérea e de capacidade operacional americana mesmo atrás das linhas inimigas. Para Teerã, o mesmo episódio é apresentado como demonstração de resistência e de que os EUA não conseguem operar sobre o Irã sem pagar um preço.
O caso se insere em um conflito muito maior. A Reuters reportou, em 28 de fevereiro, que o líder supremo iraniano Ali Khamenei foi morto em ataques atribuídos a Israel e aos Estados Unidos, citando uma autoridade israelense; naquele primeiro momento, não houve confirmação imediata por parte do Irã. Desde então, segundo Reuters e AP, a guerra se espalhou pela região, afetando rotas estratégicas de energia, elevando a tensão no Golfo e ampliando o risco de uma escalada ainda mais difícil de conter.
Há ainda um detalhe adicional que torna o quadro mais volátil: a AP informa que uma segunda aeronave militar americana também caiu no mesmo dia da derrubada do F-15E. A agência diz que um oficial dos EUA confirmou a perda de outro avião de combate na região, enquanto a mídia estatal iraniana afirmou que se tratava de um A-10. Os detalhes desse segundo caso continuam incompletos.
No centro de tudo está uma velha lógica de guerra moderna: quase tão importante quanto recuperar um piloto é controlar a história sobre essa recuperação. Se Washington vende heroísmo, Teerã tenta vender humilhação do inimigo. Entre uma versão e outra, o que parece sólido é isto: houve uma operação real, arriscada e complexa; o segundo aviador americano acabou fora do território iraniano; e o episódio mostrou, mais uma vez, que o conflito entrou num estágio em que cada ação militar já nasce acompanhada de uma batalha paralela por credibilidade.