Encenação no Morro da Capelinha, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal, contou com apoio de R$ 1,7 milhão do GDF e presença da governadora Celina Leão
PLANALTINA — A 53ª edição da Via-Sacra ao Vivo de Planaltina voltou a transformar o Morro da Capelinha, nesta Sexta-feira da Paixão, em um dos maiores palcos de fé e devoção do Distrito Federal. Diante de uma multidão, a encenação reuniu cerca de 1,4 mil atores, técnicos e voluntários e confirmou, mais uma vez, o peso religioso e cultural de um espetáculo que há décadas ocupa lugar central no calendário da Semana Santa brasiliense.
Neste ano, a montagem foi apresentada sob o tema “Nada te aflija! Não estou aqui eu que sou tua mãe?”, inspirado na mensagem de esperança ligada a Nossa Senhora de Guadalupe. Ao longo de um trajeto de cerca de 800 metros, a celebração percorreu as 14 estações da Paixão de Cristo, em uma narrativa que mistura rito religioso, teatro popular e tradição comunitária. Pelo terceiro ano consecutivo, o ator Rafael Gonçalves interpretou Jesus Cristo.
A grandiosidade da encenação também se mede por sua estrutura. O Governo do Distrito Federal destinou R$ 1,7 milhãoem apoio financeiro e logístico para a realização do evento, com foco em segurança, mobilidade e acolhimento do público. Segundo reportagens publicadas após a apresentação, a movimentação reuniu dezenas de milhares de pessoas no Morro da Capelinha, consolidando a Via-Sacra como um dos maiores espetáculos religiosos a céu aberto do país.
A governadora Celina Leão acompanhou a celebração e destacou o caráter simbólico da encenação para o Distrito Federal. Em declaração reproduzida pela imprensa local, afirmou que se trata de uma festa tradicional, vivida pelo povo como lembrança de um momento central da fé cristã, e incentivou a presença de quem ainda não conhece o evento.
Mas o que distingue a Via-Sacra de Planaltina não é apenas seu tamanho. O espetáculo carrega uma dimensão histórica rara: é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal desde 2008 e integra a memória afetiva e espiritual de gerações de moradores da cidade e de fiéis de outras regiões administrativas. A própria Secretaria de Cultura do DF lista a celebração entre os bens imateriais oficialmente registrados.
Essa permanência se explica, em parte, pelo caráter profundamente comunitário da montagem. A cada edição, o evento mobiliza uma rede extensa de participação popular, que vai além do elenco principal. São moradores, voluntários, equipes de apoio e profissionais técnicos que, juntos, sustentam uma encenação cuja força está tanto na organização quanto na devoção que a cerca. Reportagem da Agência Brasil destacou que a maior parte dos envolvidos atua de forma voluntária, o que reforça o enraizamento local do projeto.
Para o público, a experiência costuma ser mais do que contemplativa. Famílias inteiras acompanham o percurso como gesto de fé, tradição e transmissão de memória entre gerações. Foi esse o sentido ressaltado por participantes ouvidos na cobertura do evento, que descreveram a ida ao Morro da Capelinha como oportunidade de vivenciar a espiritualidade em família e de apresentar às crianças o significado da Paixão de Cristo.
Ao final, a Via-Sacra de Planaltina reafirmou aquilo que há anos a mantém viva: sua capacidade de unir espetáculo e oração, organização pública e mobilização popular, emoção coletiva e identidade local. Em um Distrito Federal frequentemente associado à política e à burocracia, o Morro da Capelinha voltou a lembrar que Brasília também se reconhece em ritos, memória e pertencimento.