Com quase 62 mil beneficiários no Distrito Federal, programa federal de incentivo financeiro ganhou peso na tentativa de manter alunos do ensino médio na escola — embora o desafio da permanência ainda esteja longe de resolvido.No Distrito Federal, onde a evasão no ensino médio continua a funcionar como um termômetro das desigualdades sociais, o programa federal Pé-de-Meia passou a ocupar um lugar central no debate educacional. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação, a taxa de abandono escolar no DF caiu de 4,6% em 2022 para 3,5% em 2024, uma redução de 24% que o governo associa à política de incentivo financeiro criada para estudantes da rede pública. No mesmo intervalo, a distorção idade-série recuou 23%, de acordo com o MEC. O alcance do programa no Distrito Federal ajuda a explicar por que ele passou a ser tratado como peça relevante da permanência escolar. Desde sua criação, 61.943 estudantes brasilienses receberam o benefício, o equivalente a 47,7%dos alunos do ensino médio público local, segundo o MEC. Em escala nacional, o governo afirma ter atendido 5,6 milhões de jovens, com investimento de R$ 18,6 bilhões ao longo de 2024 e 2025. A lógica do Pé-de-Meia é simples, mas politicamente poderosa: transformar permanência escolar em proteção material. No ensino médio regular, o estudante recebe R$ 200 mensais ao comprovar matrícula e frequência, além de R$ 1.000 ao fim de cada ano concluído, valor retido em poupança até a formatura. Há ainda um adicional de R$ 200 para quem participa do Enem no último ano. O programa foi instituído pela Lei nº 14.818, de 16 de janeiro de 2024. Mais do que um auxílio genérico, o desenho do programa mira um público bastante específico: estudantes de famílias inscritas no CadÚnico, com renda per capita de até meio salário mínimo. No DF, esse recorte social aparece com nitidez nos dados do próprio ministério: 51,5% dos beneficiários são meninas, 78,5% são negros — entre pretos e pardos — e 67 estudantes indígenas receberam o incentivo nos dois primeiros anos de vigência. Ainda que o governo atribua parte da melhora ao Pé-de-Meia, os números pedem leitura cuidadosa. Políticas de permanência escolar costumam produzir efeito em conjunto com outros fatores, como recuperação econômica, rede de proteção social, gestão das escolas e políticas estaduais. Mesmo assim, o dado federal sugere que a transferência direta de renda para estudantes do ensino médio, durante muito tempo tratada como ideia improvável, começou a produzir resultado mensurável no país: nacionalmente, o MEC afirma que o abandono caiu 43%, de 6,4% para 3,6%, e as reprovações recuaram 33%. No caso do Distrito Federal, o programa ajuda a iluminar uma questão antiga: muitos jovens não deixam a escola apenas por desinteresse, mas porque estudar compete com urgências imediatas, como trabalho precário, cuidado doméstico e insegurança econômica. Ao colocar dinheiro diretamente na conta do estudante, o Estado tenta alterar essa equação. O gesto é ao mesmo tempo pedagógico e material: sinaliza que permanecer na escola tem valor público — e também valor concreto.
Dois anos depois de criado, o Pé-de-Meia ainda está em fase de consolidação. Mas, no DF, onde quase metade dos alunos do ensino médio público já foi alcançada pelo programa, ele começa a ser medido não apenas como promessa de política social, mas como experiência real de retenção escolar. Resta saber se, com o tempo, conseguirá fazer algo ainda mais difícil do que manter o aluno na sala de aula: transformar permanência em oportunidade duradoura.