Fundos públicos voltam ao centro do debate sobre desenvolvimento em fórum em Brasília

Autoridades, bancos públicos e organismos multilaterais defendem modernização do crédito de longo prazo e novos instrumentos para financiar cidades, inovação e transição climática

BRASÍLIA — Em um momento em que a crise climática, a instabilidade global e as desigualdades regionais impõem novas exigências ao Estado e ao mercado, os fundos públicos voltaram a ocupar lugar de destaque no debate sobre o futuro do desenvolvimento brasileiro. Na abertura da 11ª edição do Fórum do Desenvolvimento, realizada nesta quarta-feira (1º), em Brasília, autoridades e especialistas defenderam o fortalecimento desses instrumentos como resposta estratégica para viabilizar investimentos de longo prazo, ampliar a capacidade de reação a emergências e sustentar uma agenda de crescimento mais equilibrado.

Promovido pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) e pelo Banco do Brasil, com apoio da Finep e patrocínio da cooperação alemã GIZ, o encontro reúne representantes dos setores público e privado em torno de uma questão que, embora técnica em aparência, tem implicações diretas sobre a vida urbana, o crédito produtivo e a capacidade do país de enfrentar choques econômicos e ambientais.

Foto: Barbarah Queiroz

Na abertura do evento, a presidenta da ABDE e diretora do BNDES, Maria Fernanda Coelho, afirmou que o financiamento estruturante segue entre os principais gargalos do país. Segundo ela, o desafio não é apenas ampliar recursos, mas criar mecanismos mais eficazes, transparentes e adaptados às urgências contemporâneas — sobretudo diante da intensificação dos eventos climáticos extremos.

Sua fala buscou posicionar os fundos públicos não como peças burocráticas de um arranjo financeiro antigo, mas como ferramentas ativas de política pública. Ao destacar temas como mobilidade, saneamento e moradia, Maria Fernanda associou a agenda do desenvolvimento à vida concreta das cidades. Nesse contexto, defendeu o aprimoramento desses fundos como forma de garantir focalização, acompanhamento social e agilidade em momentos críticos, citando como exemplo as enchentes no Rio Grande do Sul.

A dirigente também anunciou iniciativas voltadas a reforçar o Sistema Nacional de Fomento, entre elas o Prêmio ABDE-BID 2026, voltado ao estímulo de estudos e à aproximação entre academia, setor público e iniciativa privada, e o lançamento do Selo FGO, criado para incentivar boas práticas e ampliar a transparência na aplicação de recursos do Fundo de Garantia de Operações. Outro anúncio foi a criação do Observatório do Crédito para o Desenvolvimento, plataforma que pretende reunir dados e análises sobre o uso do crédito no país e seus efeitos sobre famílias, empresas e cidades.

O vice-presidente de Negócios Governo e Sustentabilidade Empresarial do Banco do Brasil, José Ricardo Sasseron, reforçou a ideia de que o atual ambiente internacional exige uma revisão dos instrumentos tradicionais de financiamento. Em sua avaliação, conflitos geopolíticos, incertezas econômicas e a emergência climática impõem uma reorientação estratégica do crédito de longo prazo.

Sasseron lembrou que o Sistema Nacional de Fomento reúne hoje 35 instituições e responde por cerca de 70% do crédito para investimento no país — um número que, por si só, ajuda a explicar a centralidade do tema no fórum. Para ele, preservar e aperfeiçoar essa estrutura é essencial, sobretudo para direcionar recursos a novas frentes, como a transição climática e o financiamento de pequenos negócios.

Ao citar mecanismos como o Fundo de Amparo ao Trabalhador e o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, o executivo procurou situar os fundos públicos dentro de uma tradição histórica de desenvolvimento brasileiro. Mencionou ainda o papel do FGO, operado pelo Banco do Brasil, na ampliação do acesso ao crédito, especialmente para micro e pequenas empresas — segmento que, em geral, enfrenta mais dificuldade para acessar financiamento em condições sustentáveis.

A defesa do crédito como ferramenta de política industrial e tecnológica foi reforçada pelo presidente da Finep, Luiz Antonio Elias. Segundo ele, o país atravessa um momento de fortalecimento do investimento produtivo e de retomada da agenda de inovação. Elias anunciou a capitalização do capital social da instituição, medida que deverá permitir acesso a cerca de R$ 25 bilhões entre 2026 e 2028.

O dirigente afirmou que programas como o Inovacred serão ampliados, com elevação dos limites de financiamento e maior atenção a micro e pequenas empresas. Também destacou uma estratégia voltada à redução das desigualdades regionais e à articulação com bancos públicos para o fortalecimento de cadeias produtivas. Entre os números apresentados, citou ainda R$ 100 milhões destinados a projetos de eficiência energética e produtividade, além da mobilização de cerca de R$ 71 bilhões nos últimos anos para iniciativas ligadas à inovação.

A dimensão internacional do debate apareceu nas falas de representantes de organismos multilaterais. O diretor da GIZ Brasil, Jochen Quinten, defendeu uma resposta cooperativa a desafios como mudança climática, desigualdade e tensões geopolíticas. Para ele, o Brasil ocupa posição estratégica na transição ecológica e já oferece exemplos concretos de como fundos públicos podem impulsionar mudanças estruturais em áreas como proteção ambiental e inclusão social.

Quinten também defendeu o avanço de modelos de blended finance, que combinam recursos públicos e privados para ampliar o alcance dos investimentos. A ideia, cada vez mais presente em fóruns de financiamento ao desenvolvimento, parte do princípio de que o capital público pode funcionar como indutor, reduzindo riscos e atraindo recursos privados para projetos de maior impacto.

Na mesma direção, a representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Annette Kilmer, afirmou que o país precisa fortalecer ambientes de experimentação financeira e inovação regulatória. Em vez de esperar soluções definitivas, disse, será necessário testar modelos, aprender com a prática e ajustar rotas com base em dados e monitoramento contínuo.

Sua fala trouxe ao debate um tom de pragmatismo: diante da velocidade das transformações climáticas e econômicas, insistir em modelos perfeitos pode equivaler à inação. Kilmer destacou ainda iniciativas em parceria com a ABDE, a CVM e a GIZ para a criação de um laboratório de soluções financeiras, voltado justamente à formulação de instrumentos mais adaptáveis e eficientes.

Ao longo da abertura, consolidou-se uma percepção comum entre os participantes: o desenvolvimento sustentável, hoje, depende menos de declarações genéricas e mais da capacidade de estruturar financiamento de longo prazo com foco, transparência e flexibilidade. Em outras palavras, a disputa não é apenas por recursos, mas por arquitetura institucional.

O fórum segue até esta quinta-feira (2), na Arena Banco do Brasil, em Brasília, com uma programação dedicada a discutir os caminhos possíveis para modernizar o financiamento ao desenvolvimento num país que, pressionado por urgências antigas e novas, volta a redescobrir o papel decisivo de seus instrumentos públicos.