Veneno de marimbondo pode frear o avanço do Alzheimer, aponta pesquisa da UnB

Molécula isolada por cientistas em Brasília protege neurônios e reduz inflamações cerebrais nas fases iniciais da doença

Uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) está chamando atenção por explorar um caminho incomum na luta contra o Alzheimer: o veneno de marimbondo. Cientistas conseguiram isolar uma molécula com potencial terapêutico capaz de proteger o cérebro e retardar o avanço da doença, especialmente nas fases iniciais.

O estudo, conduzido pelo Instituto de Biologia da UnB com apoio da FAPDF e do CNPq, não visa a cura do Alzheimer, mas representa uma nova estratégia para conservar as funções cognitivas por mais tempo.

De picada a potencial remédio

A inspiração surgiu de uma observação da natureza: a picada do marimbondo paralisa pequenas presas sem destruir o sistema nervoso. Isso sugeria que o veneno poderia atuar sobre os neurônios de forma seletiva — interferindo na comunicação, mas sem causar morte celular.

A professora Márcia Mortari, coordenadora do estudo, liderou a busca pelo componente ativo, que levou à identificação da Octovespina, a molécula mais promissora isolada do veneno.

“O composto age reduzindo a inflamação cerebral e protegendo os neurônios. Não é uma cura, mas pode retardar a progressão do Alzheimer”, explica a pesquisadora Luana Camargo, do Instituto de Psicologia da UnB.

Resultados positivos em testes com animais

Em testes com camundongos, os animais tratados com Octovespina apresentaram menor perda de memória e melhor desempenho em tarefas cognitivas. Isso indica que a substância ajuda a preservar o funcionamento cerebral, especialmente quando administrada no início da doença.

“A substância mostrou potencial para manter a comunicação entre os neurônios e conter os danos causados pela inflamação”, afirma Luana.

Caminho ainda é longo até o uso em humanos

Apesar dos avanços, a pesquisa ainda está em fase pré-clínica. Não há previsão para testes em humanos, e os cientistas estimam que podem ser necessários até 10 anos para o desenvolvimento de um medicamento baseado na Octovespina.

“Precisamos garantir a segurança e a eficácia da substância antes de avançar para a próxima etapa”,reforça Luana Camargo.

Como o Alzheimer afeta o cérebro

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que envolve o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro, como a beta-amiloide. Isso prejudica a comunicação entre os neurônios e desencadeia inflamações que aceleram a morte celular. O resultado é perda de memória, confusão mental e deterioração progressiva das funções cerebrais.

Os medicamentos disponíveis hoje atenuam sintomas, mas não impedem a progressão da doença. Por isso, descobertas como a da UnB representam um avanço significativo na busca por tratamentos mais eficazes.